Trinta e cinco anos atrás este Jornal já publicava reportagens mostrando que o lixo urbano poderia ser inteiramente aproveitado, assim eliminando os imundos e malcheirosos aterros e convertendo-se em riqueza. Já existiam usinas de beneficiamento no Brasil, inclusive em Brasília. É oportuno rememorar que todas as áreas gramadas da Capital Federal foram fertilizadas com adubo resultante da mecanização do lixo orgânico. Em Londrina, o então prefeito José Richa interessou-se pelo processo, mas o tempo de sua gestão encerrou-se e a idéia acabou soterrada.
Tem sido desprezada pelas prefeituras (no Paraná e no Brasil) a busca de informações sobre o sistema de industrialização do lixo, o que naturalmente exige investimento de capital, mas é sabido que o tratamento desses resíduos e a implantação de serviços de saneamento básico (que têm tubulações enterradas e invisíveis) não rendem voto, logo são de pouco interesse dos administradores públicos.
Reportagem de ontem do jornalista Wilhan Santin, nesta FOLHA, mostrou (pelo depoimento de técnicos) que 100% do lixo pode ser aproveitado, evitando problemas ambientais e ainda rendendo dinheiro. A tecnologia tem recursos para isso mas parece que impera um imaginário lobby contra, porque esta que é uma das questões mais complexas das cidades é justamente a que menos recebe atenção séria. Pensa-se apenas nos locais para sediar os monturos ou os aterros ditos sanitários, que nada têm de sanidade. O Paraná gera diariamente 7.200 toneladas de lixo, e a maior parte (a que não é recolhida pela seleção dos catadores) vai para os lixões, onde proliferam o mau cheiro, os insetos e bactérias, as aves de rapina e a contaminação do ar e das águas. O lixo é matéria-prima que pode se converter em riqueza, porque pode virar adubo (caso do lixo orgânico) e combustível para caldeiras industriais e usinas termoelétricas. Vidro, metal, plástico, papel, madeira podem ser aproveitados para diversos usos, não faltando compradores desse material reciclado. Os equipamentos de usinagem, cujo processo é simples, fazem automaticamente a seleção.
A boa notícia da reportagem agora publicada - embora citando o descaso ainda existente para solução do problema - é que projetos vêm se desenvolvendo (caso de uma metrópole como Curitiba) e certamente isso irá abrindo a consciência de prefeitos e vereadores e servindo de exemplo. Citado no texto, o engenheiro Bruno Miraglia (do grupo Tibagi, que envolve várias empresas vinculadas à engenharia de sistemas ambientais) garante que o aterro zero é possível. Esse trabalho jornalístico dá indicativos de como sair em busca de solução sustentável e altamente proveitosa para o lixo.

mockup