O governo do PFL quer a privatização da Copel. A Prefeitura de Londrina, do PT, já deu sinais da preferência pela venda da Sercomtel Celular e pela continuidade da terceirização da coleta de lixo. O primeiro é um governo decadente sobre o qual pesam acusações graves e que está nadando desenfreadamente para salvar o que pode – ou seja, ele mesmo. A prefeitura tem um governo que brotou da esperança popular e que possui até agora amplo apoio. Um é de direita, fisiologista, que não hesita em jogar pesado para se manter no poder e comprar os ‘‘aliados’’. O outro sempre foi de oposição e se vê agora confrontado com a árdua tarefa de administrar.
O que têm eles em comum? Aparentemente nada. No entanto, os argumentos usados, tanto para a venda da Copel, quanto para a venda da Sercomtel, são idênticos. Ambos apelaram para a falta de competitividade das empresas diante da concorrência ‘‘global’’. É incrível como os opostos se estão tocando neste ínterim. Falar que a Copel não terá condições de sobreviver no mercado de abertura total é subestimar o paranaense.
A Copel só não sobreviverá se for amarrada ao governo de Jaime Lerner. Aí sim. Ela correrá o risco de afundar. Quanto ao mais, ela é forte o suficiente para não só sobreviver, mas crescer e continuar servindo o Paraná por muitos anos. A venda da empresa é politicamente incorreta no momento e estrategicamente desastrosa.
Quanto à Sercomtel, embora a situação das telecomunicações seja diversa, nada de concreto nos diz da necessidade de vendê-la. As pequenas companhias americanas do ramo dão lucro e lá temos uma das menores taxas telefônicas do mundo. Soa estranho que o PT visceralmente contra o programa de (des)serviço nacional de privatizações de FHC, apele no momento para a venda da nossa empresa telefônica. Será que já acabou seduzido pela futura injeção de dinheiro nos cofres da prefeitura?
O ‘‘caso’’ Sercomtel, como o ‘‘caso’’ Copel, não podem de modo algum ser objeto de análises superficiais, segundo os interesses de quem manda (no momento). Se assim fosse, os dois casos fariam com que Herodes e Pilatos fizessem as pazes. Afinal, quem não suspeitaria das verdadeiras intenções tanto do governo estadual quanto do municipal? Ambos precisam de um dinheirinho extra, urgente! Ideologicamente díspares, qualquer concordância tácita refletirá um desacerto em seu seio e embora no Brasil a consistência ideológica partidária seja praticamente inexistente, o PT sempre se distinguiu por revelar o que outros não conseguiram ao longo dos anos.
A questão do lixo é finalmente outra pedra no sapato do governo petista. Os londrinenses pagaram ao longo destes anos uma das maiores taxas de recolha e ‘‘tratamento’’ de lixo do Brasil. Dentro de alguns meses vencerá o contrato com a concessionária, Vega. A discussão está tomando conta da cidade e surpreendendo positivamente pelo interesse revelado pelos cidadãos. Todos sabem que lixo não é apenas recolher os sacos e despejá-los no famoso ‘‘Lixão’’. É preciso muito mais. E este muito mais não vem por decreto. É fruto de um trabalho árduo, de educação para a questão do meio ambiente e de responsabilidade individual de todos que ‘‘geram’’ qualquer tipo de lixo.
Também aqui o PT está surpreendendo! Encostado nas reais dificuldades do município, patrocina uma campanha no sentido de nos convencer da inviabilidade de uma municipalização dos serviços. A prefeitura, ao abrigo da própria Constituição Federal vai outorgar ou delegar suas atribuições a terceiros. Nada de anormal se o PT não estivesse no governo. E de novo o PT nos surpreende.
Contrariando seu discurso tradicional, o PT vai apresentar o edital para nova licitação do serviço de recolha do lixo em Londrina. Realmente é bem mais fácil continuar com um contrato de prestação desse serviço do que assumir de frente a questão. Isso porque uma abordagem definitiva e concludente levaria necessariamente a uma revolução total no tratamento do lixo na cidade. Se o município assumir, ele sentirá na pele as enormes vantagens (inclusive econômicas) de cuidar diretamente de uma tarefa que, por princípio, compete a ele. As dificuldades apresentadas pela Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU), que administra o lixo, longe de constituírem obstáculos são, para qualquer administração, um desafio. Governar não é apenas administrar honestamente. É acima de tudo criar e buscar soluções que muitas vezes exigem arrojo e coragem política acima da média.
Os argumentos apresentados nos três itens – lixo, luz e telefone – aproximam os opostos e isso não é bom para ninguém e muito menos para o londrinense e para a democracia.
- PADRE MANUEL JOAQUIM R. DOS SANTOS é diretor de emissora de rádio em Londrina

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