Lixo é vida - Daniel Steidle
Lixo é vida
Daniel Steidle
Dentro do Espaço Aberto da Folha de Londrina/Folha do Paraná do dia 16, a escritora Maria Josefa Rafart de Seras, no artigo Lixo é lixo, elogia o programa de construção de aterros sanitários no Paraná. Gostaríamos de, como ONG Ambiental, contribuir com experiências e observações em relação a esse assunto a partir do nosso município de Rolândia. Acreditamos que a situação e as lições tiradas podem ser estendidas a outros municípios.
Por uma questão, principalmente, de muito espaço e recurso abundantes no Brasil, estamos ainda na era dos lixões. Os lixões refletem a incapacidade das prefeituras de lidar com o lixo e o pouco interesse (necessidade) e o preconceito que temos em relação ao lixo. As iniciativas para mudanças são muitas vezes por pressões internacionais, como no caso de retirar as crianças dos lixões. A palavra erradicar virou moda.
Pacotões com tecnologia de primeiro mundo são elaborados e adaptados em lugares distantes da nossa realidade. São lançados programas com muito dinheiro e propaganda que mais parecem campanhas políticas, sem uma participação ativa da população. Questionamos a eficiência dessas políticas ambientalistas vindas de cima para baixo, e também questionamos a ausência de órgãos ambientais independentes com força de fazer crítica efetiva e fazer valer o ditado diálogo sempre é o melhor caminho. Resultado: o meio ambiente está longe de ser atendido adequadamente, de maneira sustentável. O discurso está longe da prática. A tão discutida água, recurso vital e escasso, está cada vez mais em perigo nós estamos cada vez mais em perigo. Em relação à política do lixo, respeitando as peculiaridades da cidade e região, faço algumas sugestões.
O aterro sanitário seria permitido somente para o município capaz de sanear e encerrar devidamente seu lixão. O lixão, enquanto está sendo saneado, pode receber o lixo. Além das adequações técnicas para o controle das contaminações, deve ser iniciado um programa geral na cidade para separar o lixo orgânico do inorgânico, onde apenas o inorgânico (plástico, vidro, papel, metal) é levado para o lixão em transformação; o orgânico é compostado; uma simples mesa inclinada para o lixo escorregar e ser separado permitirá um melhor trabalho dos catadores; cercar a área, controlar a entrada de animais... Enfim, mudar a imagem do lixo e do lixão e o município ter condições de ingressar na era dos aterros sanitários.
É importante debater com a comunidade o futuro do lixo a partir de um diagnóstico: qual a quantia do lixo, que tipo, qual é o mercado local e regional para materiais recicláveis, qual é a estrutura humana existente, envolvida com o lixo; quais são os perfis sócio-econômicos. É preciso discutir o destino final do lixo com municípios vizinhos que, em economia de escala, poderiam em comum adotar tecnologias menos impactantes ao meio ambiente.
Assim, é necessário adequar um aterro sanitário como fim da cadeia do lixo o destino final apenas na fração inaproveitável. E localizar o aterro sanitário próximo da fonte geradora de lixo para garantir sua eficiência e qualidade ambiental. É preciso desvincular um aterro sanitário das oscilações ou limitações políticas ou do Estado muitas vezes sem meios para um rígido acompanhamento. Com isso, será possível gerar um aumento do interesse com a participação da sociedade. O lixo e o meio ambiente precisam encaixar-se mais no modelo capitalista. Isso significa descentralização e a criação de atrativos para a iniciativa privada.
O aterro sanitário ou qualquer outra tecnologia final do lixo (onde o aterro fará parte de uma outra forma) tem que ter na sua concepção um controle sobre a quantidade e qualidade do lixo. Do contrário, a indústria (da produção e da eliminação do lixo) só crescerá sem resolver o problema do lixo. Fica um preço impagável para a nossa sociedade com qualidade de vida já bastante sofrida e questionável. Pois os aterros, enquanto apenas válvulas de escape longe das cidades, amenizadas com alguns controles ambientais e uma proposta de educação ambiental futura, não obrigam à mudança real dos nossos padrões de sujar, desperdiçar e da indiferença.
Finalmente, não podemos esquecer que tudo isso é um processo sujeito a mudanças constantes, mas que para ter sucesso precisa considerar e envolver ativamente todos, independente de idade, formação ou posição. Ninguém precisa se deixar intimidar ou ter vergonha de abrir a boca é a sua vida que está em jogo!
- DANIEL STEIDLE é presidente da ONG ambiental Movimento Nossa Terra em Rolândia





