LIVROS DIDÁTICOS - Alunos fazem opção pelo capital
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terça-feira, 09 de outubro de 2007
Thiago Nassif<br>Reportagem Local 
A discussão ganhou corpo na última semana, quando, por meio de vários artigos, o diretor-executivo de uma das principais redes de comunicação do país acusou o governo Lula de instituir livros didáticos direcionados ideologicamente para apologia do marxismo e do comunismo. A bancada governista rapidamente rechaçou as afirmações. Em entrevista à FOLHA, o pedagogo e economista Hermas de Melo acredita que, mais do que idéias de governo, os livros trazem o pensamento mundial, regido pela vontade dos banqueiros: o liberalismo econômico, o individualismo e a servidão voluntária.
Como o senhor avalia a situação do ensino, hoje, no Brasil?
Cada caso é isolado, mas pode-se dizer que há a democratização do ensino. Com essa massificação, nem sempre as pessoas estão preparadas para fazer um curso superior, que envolve a ciência, por exemplo. A escola de 1º e 2º grau ensina a pessoa a ler romances, nunca textos científicos, o que gera dificuldade na assimilação.
Alguma sugestão, para melhorar essa situação?
O interessante é se ter noção de lógica, isto é, saber que o título do livro, por exemplo, é um termo geral. Que é necessário ler o livro e suas partes para posteriormente fazer a análise. Todo texto científico tem de ser encarado como objeto de consulta, não dá para você memorizar. É preciso valorizar a etimologia das palavras. Em contrapartida, grande parcela das famílias hoje não tem um dicionário em casa. Resultado: nós, em geral, empregamos muitas palavras sem saber exatamente o que elas querem dizer.
Num contexto geral, os livros didáticos são tendenciosos?
Geralmente são, caracterizando-se como forma indireta de doutrinação das pessoas. Os livros de hoje formam a cabeça do indivíduo de maneira favorável ao liberalismo econômico.
E qual o saldo dessa compreensão?
Nessa pseudodemocracia, a sociedade passa um cheque em branco para seus representantes, que nada mais são do que defensores dos interesses dos grandes grupos econômicos. Ao se ter contato com uma só ideologia, o cidadão desenvolve o pensamento único, individualista.
Para fugir dessa ''onda'' liberalista, proposta nos livros, qual seria a saída?
A leitura de textos que priorizem o social, não o mercado. Os livros acabam por legitimar o lucro, em que o indivíduo supera o grupo. O ser humano é naturalmente bom e normalmente mal, graças à educação que recebe, com as normas e regras que apregoam o ''ganhar dinheiro''. Ao invés de nos educarmos para tomar o que o outro tem, deveríamos nos focar no bem comum.
Mas para se ter o bem comum não seria necessário que as Leis fossem justas?
Exatamente. Se a Lei beneficiar uma minoria, acabamos vivendo o que temos hoje, isto é, uma situação de intranquilidade e insegurança social muito grande. No ensino, por exemplo, somente incutindo o senso de análise teríamos Leis justas, que não criassem as tão consagradas brechas. Infelizmente, não é interesse para quem detém o poder que a população utilize mais que 5% de sua capacidade de assimilação: a servidão voluntária traz o desejo de ser comandado. O presidente obedece, o empresariado obedece, a população obedece...
Diante de tanta obediência, estamos partindo para onde?
Não há uma meia soberania. Se houver ou se insistir nesse conceito, logo partiremos para a honestidade relativa, virgindade relativa, o semi-roubo. As categorias vão mudar. Temos que evitar isso e somente a educação pode devolver a soberania ao Brasil. Atualmente, somos um mercadão.


