Será que os presos estão lendo? Segundo seis estudantes do curso de Letras da Universidade Estadual de Londrina (UEL), responsáveis pela oficina de Leitura e Interpretação de textos desenvolvida junto com detentos, basta colocar contos, poemas e crônicas nas mãos dos internos da Penitenciária Estadual de Londrina (PEL) para formar novos leitores. E, por que não, escritores.
Tudo surgiu com uma reportagem publicada na Folha de Londrina, que abordava a escassa produção literária na penitenciária. ''Onde é o lugar que se tem menor acesso à cultura se não na cadeia?'', discutiram os garotos. A partir daí, a iniciativa tomou corpo. José Guilherme Nóbrega da Silva, 25 anos, e Alexandre Rocatto, 24, especializaram-se nos contos; Ilsson Roberto Siriani da Luz, 24, e Alexsandro Guergolet, 25, trabalhariam nas crônicas; Horácio Borges, 23, e João Thiago da Silva, 23, ajudariam os alunos na poesia.
Desde o dia 8 de abril, 18 presos estão participando da oficina. Ela ocorre terças e quintas-feiras, no período da manhã. O projeto leva o nome ''Com a palavra, a liberdade''. E já descobriu, segundo seus coordenadores, pelo menos quatro talentos em potencial. ''Dá para notar que, se eles tiverem acesso a boas obras, vão poder desenvolver um estilo'', diz Alexsandro.
A cada semana, um gênero literário tem espaço nas aulas. Se numa desenvolvem-se contistas, na outra será valorizado o lado poético dos detentos. E na próxima, surgirão os cronistas. Ali estão homens que, por uma razão ou outra, não tiveram vida fácil, e têm consciência disso. Matéria-prima da mais útil para poder se embrenhar nas texturas das crônicas.
Com os primeiros textos desenvolvidos, está sendo preparado um jornal, o Catatau da Palavra. A publicação de caráter informativo terá circulação dentro da PEL. A finalidade é mostrar que todos são capazes de produzir; despertar o interesse dos outros presos no projeto; e incentivar a produção dos que já participam das oficinas.
Os estudantes de Letras lamentam a escassez de obras capazes de dar maior subsídios aos participantes da oficina. E estão se desdobrando em uma campanha para arrecadar obras de contos, crônicas e poesias para a leitura dos detentos. ''Tem uma coleção inteira de ficção científica lá na biblioteca dos presos, muitos livros de religião, mas ainda faltam os romances, contos, poesias e crônicas'', lembra Ilson. ''Eles também precisam de dicionários''.
A arrecadação começou com um trote ''cultural'' junto aos calouros de Letras da UEL: eles foram convidados a colaborar com o projeto doando obras para os detentos. O resultado não foi o que os seis coordenadores da oficina, do 3º e 4º anos do curso, esperavam.
A intenção é até mesmo utilizar a colaboração de alunos do curso de Biblioteconomia para organizar o material coletado, por gêneros e autor. As obras que fazem parte da atual biblioteca da PEL estão divididas por editora. Quem estiver interessado em doar obras aos internos da PEL, pode entrar em contato com Ilson, no (43) 3357-0076, e com Alexsandro, no (43) 3325-4327.

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