Livros de autoajuda devem ser encarados com cautela
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quarta-feira, 13 de maio de 2009
Herika Fondazzi<br>Reportagem Local 
Basta olhar para as prateleiras das livrarias e perceber: os livros conhecidos como de autoajuda estão cada vez mais aumentando seu espaço. Nos últimos anos eles ganharam popularidade e estão sempre entre os títulos mais vendidos. De obras que relatam histórias de sucesso profissional até as que ensinam como manter ou conseguir um relacionamento amoroso, é possível encontrar um livro para cada desejo.
Mas o que leva tantos leitores, muitos deles que nem tinham o hábito da leitura, a buscar esse tipo de literatura? A FOLHA conversou com a psicóloga Elsie Pereira da Silva sobre esse momento do mercado editorial. Para ela, é preciso lembrar que as obras de autoajuda têm seu valor, mas não operam milagres.
Por que é tão grande a procura por esse tipo de leitura, embora o brasileiro seja conhecido por ler pouco?
Faço uma relação muito grande entre o aumento do estresse na vida moderna e a busca por soluções. Alguns buscam isso na massagem, outros na meditação. Temos pessoas que procuram nos livros de autoajuda respostas para as questões que elas não têm tempo de encontrar de outra maneira. Muitas vezes as respostas estão dentro delas mesmas, mas elas acham que o livro pode ajudar nessa busca.
A senhora acha que isso é uma busca por soluções imediatas e fáceis?
Acho que isso é mais uma busca por autonomia em encontrar soluções. A pessoa pensa que vai se ajudar sozinha, apenas lendo o livro. As pessoas hoje estão carentes de suporte emocional, sem tempo de pensar e refletir. Aí elas pegam os livros de autoajuda e tentam encontrar um norte para suas vidas.
Qual é a sua opinião, como profissional, em relação a esse tipo de leitura? É realmente possível mudar a própria vida com ela?
Vejo dois tipos de livros de autoajuda. Um que tenta trabalhar com a repetição, com sugestões e frases feitas - nesse tipo não existe fundamentação científica, um saber sistematizado. E existe uma outra categoria de livro que possui uma informação mais aprofundada - alguns deles são realmente muito bons.
Mas eles são bons apenas como leitura ou possuem uma capacidade de ajudar a encontrar respostas?
O mais importante quando a pessoa busca um livro de autoajuda é o movimento que se faz em busca do aprimoramento pessoal. Alguém sai de sua casa, vai até uma livraria e tenta encontrar respostas para suas questões. Esse buscar saídas é um ponto bastante importante. Mas o livro deve ser o primeiro passo para um processo muito rico de tentar se encontrar, o que é uma atitude muito rica. Com um livro de autoajuda ou não, tentar se conhecer um pouco mais é sempre bom. Às vezes uma frase de um livro pode ficar na cabeça da pessoa, faz ela pensar, refletir e servir de ''insight'' (percepção). E isso é muito bom.
Em quais situações os livros não ajudam?
Não podemos nem afirmar que só o livro vai ajudar. É o processo todo que pode ajudar. Agora quando a pessoa percebe que está precisando de ajuda e não consegue sair do lugar ou encontrar soluções sozinha para seus conflitos, é porque ela precisa da troca, da interação, expor seus problemas e receber uma resposta para isso, coisas que os livros não oferecem. Muitas vezes o que a pessoa precisa é de amigos, afeto, carinho.
Como perceber que um livro pode acrescentar algo e quando é apenas material de entretenimento?
Uma das coisas mais importantes é perceber que não existe uma forma padrão para os problemas de toda a humanidade. O livro que tenta colocar que a mesma receita vai funcionar para todos é um problema. Os melhores são aqueles que fazem a pessoa refletir, entender o comportamento humano, que têm base científica. Alguns livros se baseiam apenas em alguns poucos conceitos e experiências que deram certo na vida do autor.
Nesses casos, como as pessoas são diferentes, existe o risco de o leitor se frustrar por não conseguir obter o mesmo resultado?
Se a pessoa estiver tão vulnerável a ponto de acreditar que se ela ler um livro todas as coisas vão acontecer de positivo na vida dela e se isso não acontecer, ela pode se frustrar. O importante é entender porque isso está acontecendo, porque já existe uma fragilidade anterior à leitura. Você pode ler um livro na esperança de adquirir alguma coisa, mas não achando que ele vai resolver seus problemas.


