‘‘Livre pensar
é só pensar’’
Fernando José Dias da Silva
Qual seria o melhor figurino? O terno sob-medida, bem cortado, a gravata de acordo, os sapatos bem engraxados ou aquele outro que inclui a camisa esporte de qualquer marca, a calça jeans sem vinco e o cabelo e a barba cuidadosamente desalinhados para mostrar a frequência nos palanques e no contato como povo?
Não existe um modelo exato, mas no momento o que se encaixa melhor é aquele que não usa o ‘‘botton’’ com o tucaninho simpático. São as roupas que não têm intimidade com o ar-condicionado dos gabinetes palacianos. A prova disso é que nas grandes cidades nenhum candidato do governo anda bem das pernas. As pesquisas estão indicando que nenhum tucano, ou similar, está nadando de braçada para conquistar as prefeituras mais importantes.
A ordem continua sendo não perder o sangue-frio. E tentar convencer as pessoas que não entendem que eleição municipal é muito diferente das outras. Aquelas que vão acontecer em 2002 e que vão envolver os parlamentos estaduais e federal, os governos estaduais e a presidência da República.
O interessante é que muitos políticos, apesar de concordarem com a cabeça, estão na prática tentando assegurar o que acham que é deles – os currais – fazendo alianças com quem quer que seja. O importante é ganhar a eleição com o governo ou com o diabo, que é como os tucanos imaginam os adversários.
Os pragmáticos – e todos os políticos são pragmáticos por instinto de sobrevivência – agem assim porque não querem perder o bonde. Dançam um tango argentino com a maior desenvoltura com qualquer candidato à Presidência que pareça viável. Enquanto isso, o governo precisa adotar o discurso da cautela, da previdência porque, na verdade, só tem candidatos inviáveis. O nó é maior ainda porque mesmo se tivesse um delfim turbinado o governo não poderia colocá-lo no ar imediatamente, sob pena de esvaziar a administração atual.
Complicado? Complicadíssimo, principalmente porque a base que sustenta FHC é tão sólida como a dos manguezais de Recife, onde cada um pensa em pegar o seu caranguejo primeiro. Nessas histórias não entra nenhum componente ideológico. Então, se por uma hipótese um cacique regional resolve ser candidato a governador, a tendência é que ele se sinta melhor junto a um candidato à Presidência que seja viável. Como os dois nomes que já estão na roda são os de Lula e de Ciro Gomes, já se imagina o que pode acontecer.
Tem gente, não se sabe se amigos ou inimigos, imaginando que o verdadeiro candidato do governo é mesmo Ciro Gomes. Uma manobra que colocaria a estaca de madeira definitiva no peito do PSDB e cortaria de vez as asas dos tucanos mais emplumados.
Enquanto isso, o governo prefere imaginar teorias conspiratórias. Na avaliação de alguns, que ainda acreditam o governo, recobra a popularidade até o final do mandato. Haverá crescimento. Um crescimento modesto mas significativo que dará possibilidade do surgimento de um candidato com musculatura e sem uma mochila cheia de pedras de desgaste administrativo para carregar.
Por isso esses que acreditam desconfiam das manifestações nas ruas, dos ovos que homenageiam as autoridades. O interessante é que a oposição pensa justamente o contrário: que a postura de não negociar com manifestantes faz parte de um plano para que os ânimos fiquem exacerbados caracterizando a intransigência dos que reivindicam. É uma conspiração só. Então: ‘‘Livre pensar é só pensar’’, já dizia Millôr Fernandes.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo

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