Livre comércio, motor do progresso
A lição mais importante dos últimos 50 anos é que devemos aceitar o mundo exterior, em lugar de lhe darmos as costas. A abertura para o livre comércio é boa. Basta comparar o pesadelo protecionista da década de 30 com a grande prosperidade nos EUA e na Europa nos anos 50 e 60, depois que caíram as barreiras comerciais.
Os Estados bálticos tinham níveis de vida iguais à Dinamarca, antes de serem fechados por completo pelos soviets. A Checoslováquia tinha um nível de vida comparável com o da França antes da guerra. No início deste século, Chile, Argentina e Uruguai tinham níveis de vida maiores do que Nova Zelândia, Austrália e Canadá. Depois, estes países se fecharam e começaram a decair.
A abertura é o caminho mais seguro para superar o tribalismo, embora traga consigo novos desafios. Nossas vidas estão mais estreitamente ligadas com as de outras pessoas através do Planeta. Quando a Rússia caiu em mora, em 1998, as repercussões financeiras fizeram, por exemplo, com que os mexicanos proprietários de imóveis tivessem de pagar taxas hipotecárias mais altas. Quando a economia da Coréia do Sul caiu, os trabalhadores das fábricas coreanas na Inglaterra perderam seus empregos.
A Organização Mundial do Comércio (OMC) e seu predecessor, o Acordo Geral sobre Tarifas Aduaneiras e Comércio (Gatt) tiveram importante papel na criação deste mundo mais aberto e próspero. Desde que o Gatt foi estabelecido, em 1948, o comércio mundial aumentou 15 vezes, para mais de US$ 7 bilhões anuais. Isso ajudou a multiplicar por sete a produção mundial. Naturalmente, o mundo atual está longe de ser perfeito. Ainda há um grande número de pessoas pobres. Dois bilhões e 800 milhões de seres humanos vivem com menos de US$ 2 por dia.
Pobreza tão extrema é uma tragédia e uma atrocidade. Como fazer para reduzi-la? A simples resposta é que as economias em vias de desenvolvimento precisam crescer mais rapidamente. Porém, a solução não é simples. Por exemplo, o que os governos devem fazer para estimular o crescimento econômico? Cancelar a dívida do Terceiro Mundo, por exemplo, de pouco servirá para melhorar as vidas dos pobres se os governos gastam mal seus recursos. Entretanto, uma coisa resulta clara: o comércio por si só pode não ser suficiente para erradicar a pobreza, mas é essencial para que os afetados possam ter alguma esperança.
Os que se opõem ao livre comércio respondem que os países pobres continuam sem chegar ao nível dos ricos e que estes continuam tirando, cada vez mais, vantagem dos pobres. É verdade que os países pobres, em geral, não estão alcançando os ricos. Entretanto, é óbvio que alguns países em desenvolvimento estão conseguindo. Basta olhar para a Coréia do Sul. Há 30 anos, era um país tão pobre quanto Gana. Agora, graças ao crescimento baseado no comércio, é tão rico quanto Portugal. De fato, um estudo da OMC publicado este ano afirma que os países pobres que estão chegando ao nível dos ricos são os que estão abertos ao comércio e que, quanto mais abertos estão, mais se acentua sua convergência para a situação de países ricos.
Ainda assim, os críticos do livre comércio argumentam que as pessoas pobres dentro de um país saem perdendo quando seu comércio é liberalizado. Não é assim. O estudo da OMC diz que os pobres tendem a se beneficiar com o crescimento mais rápido da economia proporcionado pela liberalização do comércio, e conclui que a abertura geralmente é uma contribuição extremamente positiva para o alívio da pobreza.
Naturalmente algumas pessoas perderam, a curto prazo, por causa de liberalização do comércio. Alguns são peixes gordos que se tornaram ricos graças a amistosos tratados com os governos. Outros são pobres camponeses que perderam seus subsídios, ou trabalhadores não especializados que perderam seus empregos. Sua difícil situação não deve ser ignorada. O caminho correto para aliviar os infortúnios dos poucos desafortunados é através das redes de seguro social e da requalificação profissional e não o de abandonar as reformas que beneficiam as maiorias.
- MIKE MOORE é diretor-geral da OMC (IPS)





