Literatura e jornal (2)
Vínculos entre a literatura e o jornalismo foram ressaltados em ensaios de Alceu de Amoroso Lima e outros críticos. Mesmo assim houve sempre uma cautela para indicar as fronteiras de aproximação e distanciamento entre essas duas manifestações até porque grande parte dos quadros de redação era constituído de escritores. Graciliano Ramos, um dos nossos gigantes do romance e do conto, era revisor, imaginem. Áspero, um dia leu num texto a palavra ''outrossim''. Anulou a palavra insólita, riscando-a, e largou bem alto um solene PQP.
Boa parte dos escritores se dedicava a um gênero, a crônica. Mestres como Rubem Braga, Ledo Ivo, Drummond de Andrade, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego pontificavam. Na província tudo se repetia com o drama de os autóctones terem que lutar por espaços com gênios do mundo cosmopolita. Comecei por aí em ''O Estado do Paraná'' fazendo crônicas do cotidiano, meio líricas, aquela obstinação em fazer do transitório algo de maior durabilidade e para tanto o modelo era do ''sabiá'' dessa arte, Rubem Braga. Outros se dedicavam ao Paraná como Coelho Júnior, dando aulas sobre a nossa geografia e história.
AO FLUIR DA BLAGUE Um dia, e isso para ressaltar outro aspecto, o boêmio e espetaculoso, de um tempo em que a blague fluia no ambiente de redação e também nas oficinas, alguém escreveu um artigo sobre o desperdício da área pública sob o título ''Dinheiro não é capim''. O Coelho Júnior não deixou por menos e siderado pela sugestão, que ao raciocínio cartesiano parecia esdrúxula, tascou-lhe um texto intitulado ''Capim é dinheiro'' e como agrimensor que entende de agrostologia, a ciência dos pastos, passou a falar sobre a missioneira, a braquiária, soja perene e até o quicuio e sua importância econômica. O João Batista Moraes, diretor-gerente do Estadinho, aprontou uma perfídia para o Coelho: quando foi pegar o seu envelope do vale semanal o encontrou cheio de capim.
Era assim, surreal, realismo fantástico o nosso convívio, algo impossível nas redações liofilizadas, dominadas por organogramas e fluxogramas, de hoje.
A VIDA TRANSFIGURADA Esse viver transfigurado, o que é próprio da literatura, era uma constante. A todo dia, à toda hora, um desses saques espirituais. Havia mestres no gênero como o professor Milton Carneiro, rei do mundo verbal, e o próprio Freitas Neto, secretário da redação. Um dia o Freitinhas corrigiu um redator e esse chiou querendo alimentar polêmica em torno do solecismo apontado. Depois de uma discussão curta, o Freitas sintetizou com uma ironia: ''a concordância aqui é com a secretaria de redação''. Na verdade nunca foi autoritário e queria simplesmente fazer trocadilho com o verbo concordar.
A redação era, nesse tempo, um teatro. No ''Diário do Paraná'' o primeiro diagramador que aqui pintou, vindo da Argentina, Benjamin Steiner, hoje um marchand das artes visuais, era o centro de todas as atenções, não apenas pelo trabalho que desenvolvia e que acompanhávamos, espantados, como se emergisse da prancha, uma flor ou uma couve, o jornal decodificado em lay-out. Clássica é a passagem em que houve polêmica por causa de uma cadeira na PUC e o editor cultural, Temístocles Linhares, havia tomado posição quando havia ordem da direção para que nada saísse. ''Então'' - disse dramaticamente, como costumava fazer com seu histrionismo invulgar -'' faço que nem Sócrates e lavo as mãos''. O diretor comercial, Edison Damato, que ocupava um mezanino quis fazer a correção: ''Benjamin, você quer dizer Pôncio Pilatos!''. Foi a deixa para que o diagramador jogasse a pá de cal ''Vai querer me dizer que Sócrates não lavava as mãos?''





