''Linha direta''
Linha direta
Maria Lucia Victor Barbosa
A justiça dos homens nunca valeu grande coisa. É falha, parcial e demorada. Em países como o Brasil isto se acentua, mas de uns tempos para cá as condições, especialmente do Poder Judiciário, vem se deteriorando de forma acelerada. E assim, na esteira da impunidade e da corrupção, vai emergindo o que o sociólogo Émile Durkheim denominou de anomia, ou seja, a perigosa situação em que regras e leis desaparecem, prevalecendo o descontrole social, a ausência de valores, a inexistência de rumos bem delimitados para os indivíduos.
Isso acontece especialmente em momentos de guerra, de conflitos sociais mais graves pelos quais o Brasil nunca passou. Nem sequer, felizmente, temos terremotos, maremotos ou coisa que o valha para arrasar cidades e atirar populações ao desespero. Impávidos, colossos, prosseguimos a choramingar em nome de eternas crises, enquanto apreciamos nossa invejável natureza em praias paradisíacas, estonteantes montanhas, verdes prados do Senhor e cascatas e rios com aconchegos do Éden.
Ai, pobre de nós, coitadinhos de nós, seguimos sempre nos lamuriando. Mas o que deveria de fato nos preocupar, não interessa. Como disse meu ilustre amigo, o embaixador Meira Penna, o brasileiro só trata seriamente o que não é sério, e o que é sério, leva na brincadeira. Por isso, Carnaval e futebol são tratados como as coisas mais sérias do mundo.
Mas será que a sociedade está se dando seriamente conta da situação praticamente anômica que estamos vivendo, onde não só valores essenciais, mas a própria vida perde o sentido? E quando uma vida é extirpada gratuitamente por bandidos, essa raça de monstros que age impunemente, o que fazem os parentes e amigos da vítima diante da Justiça? Hoje, no Brasil, só há um jeito de obter que se faça justiça rápida através do reconhecimento, localização e prisão de bandidos: o apelo à Linha direta, programa da TV Globo que vem se tornando mais eficiente do que todo o policiamento brasileiro reunido e mais eficaz que o total dos nossos tribunais para descobrir criminosos e esclarecer crimes. Isso dá o que pensar e significa que o cidadão está completamente desprotegido, pois de fato, na Justiça oriunda do Estado e deste dever fundamental, as linhas estão sempre ocupadas, sendo impossível contato com a lei.
Na verdade, neste país, crimes dificilmente são desvendados, e quando o são, por conta de evidências impossíveis de serem ocultadas, geralmente o resultado dos julgamentos é absurdo.
Vejamos alguns exemplos simples e que estão nos noticiários desta semana: Edinho, filho do Pelé, que segundo foi dito estava num racha, bate num carro que atropela um homem. É condenado a seis anos de prisão em regime semi-aberto.
Edmundo, o Animal, famoso no futebol e pela bestialidade, ao dirigir bate num carro matando seus dois ocupantes, além da moça no seu próprio automóvel. É condenado a quatro anos de reclusão em regime semi-aberto. Ele se apresenta, passa um dia na prisão onde entra sob aplausos dos bandidos (estes, como se sabe, usam os sinais trocados do diabo para significar que o mal é o bem e o bem é o mal). O ídolo sai no dia seguinte rodeado de fotógrafos e populares. A televisão corre a noticiar o grande acontecimento e, provavelmente, condoída pela sorte do seu herói, muita gente deve ter murmurado entre lágrimas: Pobre canibal, ainda não comeu carne fresca hoje.
De todo modo, nesta estranha matemática jurídica, o que se vê é que uma morte vale seis anos, e três mortes, quatro anos. Para culminar, uma humilde e idosa senhora da cidade de Arapongas, que tinha um galo e umas galinhas no seu quintal, foi condenada a cumprir pena por seis meses prestando serviços comunitários. Crime da pobre coitada: o canto do galo. Pergunta: nesta cidade tem ladrão solto, inclusive de galinha?
Mas voltemos aos crimes insolúveis. Tomemos alguns mais evidentes e perguntemos em tom de novela: quem matou PC Farias? Quem matou o juiz de Cuiabá, Leopoldino Marques do Amaral?
A morte de PC Farias já teve lances rocambolescos, e há sempre uma vidente tanto na vida quanto na morte deste homem. Quando ele estava refugiado em Bankoc, foi uma vidente, que a família levava com certeza por precaução, quem abriu a porta para a polícia perguntando numa demonstração inequívoca dos seus ausentes dons de adivinhação: quem é? E a polícia crau em PC Farias. Agora, uma vidente (não sei se a mesma ou outra colega de profissão), que inclusive lançou esta semana o livro intitulado 72 horas com PC Farias, adivinhou que foi Suzana Marcolino, também assassinada, quem matou o amante usando uma trama diabólica. Uma visão, diga-se de passagem, extremamente confusa, digna daquele programa de TV Acredite se Quiser, apresentado pelo arfante astro norte-americano Jack Palance.
Mas para saber mesmo quem matou PC ou desvendar qualquer crime, só tem um jeito: Linha direta. Isso porque, já não se sabe quem é bandido e quem é mocinho. Vejamos alguns exemplos: no Mato Grosso, o juiz Leopoldino Marques do Amaral é assassinado depois de encaminhar dossiê contendo pesadas acusações contra desembargadores ligados ao tráfico de drogas e vendas de sentença. No Piauí, surgem graves denúncias contra oficiais da Polícia Militar, delegados, juízes, promotores públicos, empresários e prefeitos. Segundo relatório da Polícia Federal, dois juízes, um coronel reformado e um promotor, estão ligados à lavagem de dinheiro, tráfico de armas e assassinatos por encomenda.
A lista é longa, e o mal se espalha pelo país. Portanto, em quem confiar, apesar de existirem também policiais e homens da lei íntegros? Talvez, só reste a linha direta, e isso é preocupante.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
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