Lincoln Brasil e Silva
Meditando
em Boston
Entro na loja de ferragens de um bairro de Boston, nos Estados Unidos. Os itens, quase inacabáveis, fazem o sonho de qualquer carpinteiro amador. Separo vários, baratos, bons e vou ao caixa pagar. Confiro cada um cuidadosamente; mas, noto que o dono me observa, curioso. Explico, isso vai para o Brasil, lá me é difícil, impossível comprá-los. É um homem bom, e pede se pode fazer uma pergunta sobre algo que o aflige: anda muito preocupado com notícias de que estamos derrubando árvores sem parar. Não vamos parar? Respondo que esta questão é ampla, necessita de um enfoque abrangente. E ele diz que não tem pressa. Nem eu.
Inicio dizendo que meu país, grande, bonito, rico, abriga um povo sábio como o seu, pois soube manter uma única língua - e nisto somos peculiares - mas que sofreu ao longo de três séculos e meio de uma colonização desastrosa em quase todos os aspectos sociais.
Informo que o meu país é profundamente injusto, e que nossa pirâmide social é um monumento à desigualdade: no topo, o poder e a classe rica, historicamente donos dos fatos, representam uma fração microscópica, coisa de 1% do total, controlando acima de 70% de tudo que possuimos. Embaixo, uma classe média também cheia de desigualdades mas reduzida, e que diminui sem parar e se esvazia em cima de uma imensa classe pobre que já soma 80%, ou 120 milhões. Sozinha, ela formaria entre os grandes países do mundo.
Conto que recente avaliação do ensino oficial oferecido ao povo revelou: em nosso Estado mais rico, só 15% dos alunos de 8ª série sabem fazer contas aritméticas com facilidade ou conseguem se expressar claramente na linguagem do dia-a-dia. E que me pergunto como povo assim poderia analisar os grandes números que diariamente escuta de políticos espertos e acomodados, ou ler o que está escrito nos jornais e livros que denunciam a se insurgem com a falta de justiça e de direitos que estão no cotidiano de uma história plena de inverdades oficiais, impressa em livros didáticos patrocinados pelo mesmo poder frio, distante e conivente.
Que para muitos políticos é mais fácil falar a um povo pobre em luzes e poder... Que nossa Justiça é cara, lenta, cheia de mordomias e distante, insensível. Meu povo não sabe lidar com grandes números, e teme um poder, que sempre foi prepotente e imperial, como foram os 389 anos de colônia, se lembrarmos que após a independência ficamos com a mesma monarquia...
Que nossas matas naturais que tanto o preocupam - e a muitos de nós - margeiam estados pobres, sendo muito difícil imaginar alguém morrendo de fome ao lado de uma árvore que vale algum dinheiro. Que isso é um estado de espírito e que não tem muito de consciência.
Que a consequência da ignorância e da pobreza é a destruição. É trágico. E lhe digo que muitos brasileiros bradam que só um povo culto e rico tem a consciência social e ecológica de preservar, e vislumbrar o futuro. Com fome e sem meios de entender as consequências de tais atos, come-se, incendeia-se, destrói-se a terra de nossos descendentes. Na realidade, uma minoria se dá conta de que seus netos viverão de nosso presente. Muito triste.
Nossa conversa acaba em silêncio, e percebo quer ele não sabe enfocar a coisa de um modo mais coerente. Pensava que éramos apenas destruidores insensíveis de uma riqueza universal. Comento que se fôssemos ricos e cultos, faríamos pergunta semelhante a sua, sincera e honesta.
E saio andando com meu pacotinho, triste com minhas verdades.
- LINCOLN BRASIL E SILVA é médico em Londrina

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