É óbvio que quem comete crime ter de ser punido, na forma da lei. E se o crime é horroroso, cometido com requintes de crueldade, a punição precisa ser severa na mesma medida - todavia, na forma que a lei determina.
Um crime é sempre um fato social, e quanto mais ele agredir tabus, costumes, usos, mais afetado o social fica. Daí que, dependendo do caso, o ódio gerado por aquela agressão pode acabar fazendo muita gente renunciar às conquistas do processo civilizatório e apelar para reações típicas dos tempos em que os criminosos eram punidos ‘‘olho por olho, dente por dente’’. Tempos, também, da ‘‘vingança privada’’, em que a vítima, ou seus parentes, tratavam de fazer justiça à sua maneira. O resultado são, por exemplo, os linchamentos.
Qual é o problema do linchamento? Além de significar a negação da racionalidade, o linchamento impede que as peculiaridades das circunstâncias do fato criminoso sejam apuradas. E essa apuração é fundamental para que se chegue à medida correta da punição aplicada. São muitas as causas que levam um ser humano à delinquência. Pode ser até por safadeza, por ruindade, mas também pode ser uma doença cerebral, que dificulta ou impede ao seu portador o entendimento claro de que aquilo que está fazendo é errado. No linchamento, não há tempo nem para se perguntar o nome do suposto bandido.
Essa reflexão tem lugar quando, mais uma vez, o Brasil se vê às voltas com crimes apavorantes, supostamente praticados por um serial killer, um matador em série, que trucidou várias mulheres na mata do Parque do Estado, zona sudeste de São Paulo.
Não demorou muito e a polícia apresentou um motoboy como sendo o principal acusado pela prática dos tais crimes. Uma suposição que a imprensa tratava, no início, até com certa discrição. Porém, pouco a pouco, foi ampliando o espaço para tratar do assunto. Começou com algumas reportagens, algumas fotos, aparecendo mais os policiais e suas conjecturas. Logo depois, quando a polícia mostrou o retrato falado do suposto delinquente, parece que o tema ferveu na mentalidade coletiva. E o que ferve na mentalidade coletiva, vende. Foi parar na berlinda dos programas de variedades, que gostam de explorar esse tipo de coisa. Chegou nas primeiras páginas dos jornais e nas chamadas dos telejornais. Alguns destes mostrando não só a fotografia do suposto homicida, mais ainda especulando através da computação gráfica, as várias possibilidades de disfarce. E mostrando as fotos do sujeito quando criança, quando adolescente, quando praticando esporte. De repente, surgem na telinha os familiares do suposto criminoso. Claro, com sua digna mãe submetida aos holofotes das câmeras de TV, fazendo pedidos maternais e derramando lágrimas de dor e decepção. Depois focalizaram o digno pai, constrangido, mas mesmo assim depositando fé em Deus e crença na justiça dos homens. A seguir, foi a vez do irmão, declarando que a justiça deveria ser feita, doesse a quem doesse. E vieram os vizinhos (só faltavam os vizinhos) falar qualquer coisa sobre o rapaz. Um autêntico programa tipo ‘‘esta é sua vida’’. Até que ponto a Justica e a verdade serão beneficiadas com isso?
Hoje, a população está às voltas com distinções conceitas, acadêmicas, entre ‘‘prova’’ e ‘‘indício’’, e discutindo sobre técnicas periciais da medicina forense. Como as vítimas tinham marca de mordidas, pode ser feito um exame da arcada dentária do suposto homicida. Contudo, se ele tiver uma ‘‘dentição normal’’ dizem os especialistas, o exame fica inconclusivo. E o exame de DNA, feito com o sêmen encontrado no corpo de uma das vítimas? Poderia ser feito, mas o número de espermatozóides levados ao laboratório é insuficiente, dizem os especialistas, para isolar a molécula de DNA. (E o que é pior, disseram que isso poderia ter acontecido por falha técnica na coleta do material).
O que tínhamos, então, na prática, era o País inteiro reconhecendo um homem como sendo um acusado de ser o ‘‘maníaco do parque’’ e uma família sendo conhecida como a família do suposto ‘‘maníaco’’. Isto é, a imprensa, no afã de informar, tinha tido o cuidado de frisar que estávamos diante de um suposto matador. No entanto, quando disseram que o suposto matador teria fugido para o nosso Estado, ouvi pessoas dizendo, aflitas: ‘‘o maníaco do parque veio para o Paraná!’’
Para uma parte da população (talvez a maior parte), não faz diferença se o motoboy confessou, ou não. Ele já estava condenado, e linchado, desde o tempo em que era um mero suspeito.

mockup