Linchamento moral (Editorial)
A exposição pública a que está sendo submetido o presidente Bill Clinton, que hoje chega ao auge com a divulgação, para os Estados Unidos e o mundo, das fitas com os depoimentos dados por ele ao Grande Júri, pode ser apontada pelos norte-americanos como o mais cabal exemplo de democracia. Todos são iguais perante a lei, conforme assinalam os princípios democráticos e, nos Estados Unidos, pátria da idéia, isto é elevado à potência máxima. Há tanta e, seguramente, tão fundada preocupação em garantir os direitos do cidadão que as autoridades policiais enfrentam dificuldades enormes em mandar algum criminoso para a cadeia. É até certo ponto louvável a preocupação, que pode ser conceituada através da afirmativa segundo a qual é melhor deixar um criminoso livre do que condenar um inocente.
Todavia, o que está acontecendo em relação ao presidente norte-americano não pode ser considerado um exemplo da aplicação plena da igualdade da lei. Na verdade, Bill Clinton está sendo execrado, posto em evidência negativa por todos os meios mais modernos de comunicação, não por ser um cidadão comum que foi apanhado em uma falta (que, para a mentalidade mais puritana é um pecado), mas exatamente pelo fato político. Fosse uma pessoa comum acusada de perjúrio ou obstrução da Justiça (até agora os crimes que fazem parte do relatório Kenneth Starr) estaria sendo submetido a um julgamento sem maiores exposições.
Fica claro que o interesse maior é a desmoralização de Clinton. Seguramente, a Justiça norte-americana deve ter assuntos muito mais graves e sérios a considerar, entre os quais, só para lembrar os mais recentes e chocantes, os crimes cometidos por menores armados.
Clinton está sendo exposto por ser o presidente. Aparentemente, é justo, pois afinal é possível considerar que ao realizar os atos de que é acusado conspurcou o cargo. Mas ele não está sendo julgado pelas relações tidas com a ex-estagiária Monica Lewinsky. O que fez ou deixou de fazer no Salão Oval ou em qualquer dependência da Casa Branca não é o tema do julgamento. A questão é se o presidente cometeu perjúrio ou se induziu a jovem a fazê-lo, e se adotou qualquer tipo de atitude para obstruir a Justiça. A prova, no caso, não necessitaria da revelação dos detalhes sórdidos dos encontros dele com Monica, nem reclamaria uma exposição mundial, através da Internet ou da TV.
O pior é que esta situação, ao contrário de mostrar um quadro de democracia plena, acaba por se converter em um verdadeiro linchamento público, o que é até incompatível com os princípios de Justiça, nos Estados Unidos ou em qualquer país civilizado. Paralelamente, o homem que dirige a maior (hoje, talvez a única) potência mundial, num momento de profunda inquietação econômica, fica quase que manietado pelo processo, enlameado pelas acusações e, assim, quase sem possibilidade de realizar o seu trabalho. O que, sem dúvida, prejudica não só o seu país mas boa parte do mundo.
É importante perceber que, apesar de tudo, pelo menos até agora, ponderável maioria da população considera que tudo o que se revelou não afeta a presidência e entende que Clinton está fazendo uma boa administração. A boa situação econômica norte-americana é um atestado disto. A questão é saber até quando poderá o presidente seguir agindo, em meio ao lodaçal em que tem sido lançado. Mais sério, ainda, é saber o que pode acontecer se, convertido em vítima de um processo discutível, na forma como é conduzido, Clinton acabe perdendo as condições de seguir com o trabalho para o qual foi eleito. Num momento tão sério da vida do planeta, numa transição tão delicada, não deixa de causar estranheza o fato de que alguém que poderia ter participação decisiva na busca de uma solução, esteja sendo vilipendiado ao vivo e em cores em todo o planeta.





