Limites e possibilidades de dialogar
PUBLICAÇÃO
domingo, 06 de fevereiro de 2005
Luiz Carlos Ferraz Manini 
Fomentar diálogos é uma importante função dos segmentos considerados como a elite intelectual do país. De forma honesta, correta e responsável, os mantenedores da ordem devem promover o debate de idéias e propor soluções aos problemas que afligem a sociedade como um todo, perpassando-a enquanto um corpo social, que funciona coesa e harmoniosamente.
Porém, muitas vezes nos deparamos com exemplos de irresponsabilidade e inaptidão para o desempenho de tal função, já que, no local onde se deveria pregar a liberdade, presenciamos a onipotência do saber, que se faz castrador e se arroga uma pretensão de verdade absoluta, desprezando as demais concepções como apenas ''idéias locais'', saberes menores, diria Gilles Deleuze.
O uso de expressões e palavras difíceis sempre caracterizou a retórica, a arte de bem falar, muito embora sirva, na maioria dos casos, para iludir e enganar, deixando aos menos favorecidos a impressão de algo belo e grandioso, num discurso no qual inúmeras bobagens são ditas.
Além do mais, a questão da autoridade se faz inabalável, uma vez que títulos e distinções acadêmicas parecem enriquecer o nome de alguém que não é mais do que simplesmente humano. Essa autoridade de que se reveste implica-lhe um papel demagógico, pois que conduz as massas, com arrogância e um pseudodiscernimento engrandecedor. Além disso, é capaz de tomar a posição vitimizadora, dizendo que falou apenas o que é certo, e que as demais idéias se debatam nas cabeças de seus formuladores, pois estas, falsas, não podem dialogar senão consigo mesmas.
Ora, numa reflexão pessoal, estas idéias sempre se debatem consigo próprias, já que partem de um conjunto particular de concepções adquiridas ao longo da vida. O maior problema é quando estas ''verdades peculiares'' não mais além do que o próprio apêndice nasal, que geralmente se encontra frontalmente com a parede.
O que gostaria de dizer, ao final, simplesmente para concluir? Incentivemos o diálogo, promovamos discussões, mas nunca no sentido de nos pautarmos pela concepção de verdade plena e absoluta. Trabalhemos com a noção de que atravessar a rua e ser atropelado, para uns, é realmente um desígnio de Deus, enquanto para outros, terá sido a consequência de ter passado embaixo daquela escada que o pintor usava para pintar o muro, sendo que um terceiro ainda verá a causa na pressa do pedestre em atravessar. O que estará errado nestas três explicações? Nada, enquanto tenhamos em mente que vivemos em um sociedade que não se conduz por uma única regra, mas que nos dá liberdade para acreditarmos no que quisermos.
LUIZ CARLOS FERRAZ MANINI é professor de História em Londrina
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