A meritocracia é um sistema que considera o mérito como a base que fundamenta a hierarquia dentro da estrutura social. É o merecimento decorrente de esforço e habilidades superiores que, por meio de um processo de seleção e de disputa entre indivíduos, define a posição que cada um ocupa na sociedade. A meritocracia é reconhecida como um avanço nas estruturas que compõem a sociedade moderna, ao substituir privilégios inatos, como fatores biológicos, nomes de família, gênero, raça, religião, herança, títulos ou qualquer outro fator hierarquizador, pelo desempenho individual dentro de um ambiente de livre competição.
Geralmente, os que defendem a exclusividade da tese meritocrática como mecanismo de estratificação social, reduzem-no à lógica de mercado, em que tudo é traduzido numa relação de compra e venda, que se cristaliza em cifras financeiras. Por essa lógica, um rico empresário da indústria de cigarros seria socialmente mais importante do que um grande cientista que descobre a cura para uma doença que vitima milhões de pessoas, ou um industrial do ramo de bebidas alcoólicas se sobreponha a um agricultor de alimentos orgânicos. Dessa forma, o valor de pessoas como Gandhi, Zilda Arns, Martin Luther King seria desprezível.
Há uma crença imposta por uma parte das elites econômicas que quer fazer crer que o desempenho de cada um só depende do esforço individual, se houver empenho e dedicação qualquer um pode atingir os patamares mais elevados na hierarquia social. Essa perspectiva desconsidera a influência decisiva da desigualdade de oportunidades que se estabelece logo à partida e que se repercute decisivamente no resultado obtido. Quem nasceu numa família estruturada, teve acesso às melhores escolas, conviveu num ambiente onde o conhecimento sempre foi facilitado e estimulado e conta com uma privilegiada rede de contatos, invariavelmente consegue vantagens sobre os demais. Qual o real mérito de quem está na dianteira porque largou 100 metros à frente?
Mas ainda que houvesse uma situação de igualdade plena de oportunidades, qual seria a diferença aceitável entre indivíduos com desempenhos diferentes, haja vista que qualquer atividade individual depende de uma rede de relações coletivas e jamais é fruto isolado de alguém com poderes sobrenaturais? É justo que os louros sejam apoderados individualmente, quando o trabalho é coletivamente produzido e que muitos dos resultados obtidos, em vez de mérito pessoal, são fruto da exploração e dominação?
Outro ponto que merece reflexão, quando se aborda a questão do mérito, é definir a sua métrica. Para sujeitos como Bill Gates, Warren Buffett ou Carlos Slim, alguns dos homens mais ricos do mundo - valorizados por seu mérito individual – os demais cidadãos são simplesmente vistos como medíocres. De acordo com essa lógica e em nome da eficiência econômica, seria aceitável que este grupo de "bem-aventurados" dominasse todos os campos em que os padrões de desempenho sejam inferiores aos seus? Em suma, o mérito sempre está ligado a parâmetros, o que parece mérito para uns pode ser a mediocridade para outros e assim justificar o seu aniquilamento.
Não se pretende aqui desprezar a importância do mérito individual como medida de valor, pois por meio deste evoluiu-se de uma cultura de imobilidade social com funções e privilégios hereditários, para a do reconhecimento do talento e do esforço. O problema está em se usar esse critério de forma exclusiva e arbitrária, justificando-se qualquer padrão de desigualdade como aceitável e justo dentro da lógica do livre mercado, mesmo quando vem legitimar a exploração, desconsiderando o trabalho coletivamente produzido e a interdependência que nos caracteriza como sociedade e espécie.

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