É inegável que as escolas de Jornalismo precisam constantemente de atualização, como também de uma aproximação com o mercado de trabalho (os vários) e com as novas tecnologias.
Mas é fundamental refletir sobre as afirmações que culpam exclusivamente a escola pela falta de conhecimento dos jovens jornalistas sobre a sociedade, pela ausência de domínio das novas tecnologias, pela inexperiência na apuração informativa ou por eventuais erros gramaticais.
É interessante lembrar que o volume contemporâneo de informação e de conhecimento, produzido por diferentes áreas, é tão grande que ninguém, por mais enciclopédico e dedicado que seja, conseguirá, no breve espaço de sua graduação ou vida, dar conta.
A produção de conhecimento dobra a cada quatro anos. Em breve será em dois. Ao mesmo tempo, a irrupção de acontecimentos, produzidos por relações sociais e problemas cotidianos, é inesgotável. A seletividade precisa ter critérios muito rigorosos para transformar alguns eventos - e somente alguns - em fatos jornalísticos.
Caberia ao estudante de jornalismo, para evitar erros de apuração, mediação e interpretação, conhecer todas as áreas de conhecimento? Ou entender os acontecimentos em sua dimensão mais profunda? Ele substituiria as fontes e o conhecimento específico delas?
O jornalista também lida com distintas áreas, não por ser um especialista nelas, mas como um profissional que busca com que se manifestem da forma mais democrática, massiva, clara, pública e imediata pela atividade jornalística. Se há perda em densidade, há ganhos em intensidade e informação imediata.
A mediação que envolve escolhas de pauta, apuração, busca de fontes, checagem, edição e uma grande quantidade de outros procedimentos têm, em suas diferentes fases, um compromisso com a teoria, com a ética, com a estética e com a técnica, que é por onde todos se expressam. Isto é, há um saber
e um fazer específicos. Certamente, sempre haverá déficit de conhecimento, mesmo para experientes profissionais.
Em quatro anos, o estudante pode aprender as bases profissionais técnicas, éticas, estéticas. Pode refletir sobre a natureza de sua atividade futura e vinculá-la a outros campos de conhecimento e à sociedade. No entanto, a não ser que o curso dure 30 ou 40 anos, seus conhecimentos unive4*
rsitários serão tão grandes ou limitados quanto os de quaisquer outras áreas.
Quanto à tecnologia, sabemos que ela - e não a técnica - pode ser apreendida mais rapidamente e mais facilmente do que as complexas relações sociais que produzem fatos, versões e conhecimento.
Além disso, é interessante lembrar que os equívocos jornalísticos são deploráveis, mas erros acontecem em quaisquer áreas. As mortes em hospitais por erro de diagnóstico, os prédios que racham, a errônea interpretação sociológica sobre a miséria social brasileira são apenas alguns casos que, não estando no espaço público cotidiano de forma tão intensa, provocam menos comentários. Mesmo assim, escolas de Engenharia e Medicina continuam valorizadas.
Erros de informação jornalística também não são exclusivos de estudantes ou recém-formados. Foram experimentados profissionais que produziram erros informativos no caso Escola de Base, análises equivocadas sobre as economias mexicana e argentina, carência de informações sobre a Guerra do Golfo ou ausência de dados, por longos anos, sobre os problemas agrários brasileiros.
Há, certamente, muitos problemas nas escolas. Não são, no entanto, maiores do que os existentes nas Redações. Aos 20 anos, talvez se erre mais na estruturação do texto, se seja mais inseguro quanto à apuração, se tenha menos informações gerais sobre o mundo. Mas aos 20 anos isso pode ser corrigido. As Redações podem e devem ajudar nesse início profissional.
No entanto, a escola serve ainda para refletir por que, aos 60 anos, experientes jornalistas também erram e as razões disso, certamente mais complexas do que escrever em ordem direta ou evitar erros gramaticais. Para estes, bastam pequenas correções. Para erros éticos - com clara repercussão na técnica - talvez seja preciso repensar a vida e a profissão. E a discussão sobre elas não se dá na Redação, mas na escola, lugar que ainda pode ser efervescente, sem limites mercadológicos e políticos e aberto à universalidade de interesses. Por isso, uma universidade é uma universidade; não um bar, não um balcão de negócios, não uma fábrica de mecânicos e pacatos operadores de botões ou teclados.
- FRANCISCO JOSÉ CASTILHOS KARAM é professor da Universidade Federal de Santa Catarina. Este artigo foi transcrito da última edição do jornal da Associação Nacional de Jornais.

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