Limites da crise de confiança - Rogério Furquim Werneck
PUBLICAÇÃO
domingo, 27 de dezembro de 1998
Rogério Furquim Werneck 
A palavra em inglês é brinkmanship. Não há expressão correspondente tão concisa em português, mas a idéia é simples. Trata-se da arte ou da prática de levar uma situação perigosa ou uma confrontação até o limite do que pode ser considerado seguro, para conseguir um determinado desfecho. Naturalmente, o alto risco assumido tanto pode levar ao desastre como ao sucesso. Essa conotação mais ampla de brinkmanship convive com uma conotação muito mais específica, já bem discutida há quase 40 anos por Thomas Schelling no seu Strategy of Conflict. Envolve uma prática que diplomatas, estadistas e negociadores conhecem, de alguma maneira, desde tempos imemoriais: a tática de deliberadamente criar um risco perceptível, e não completamente controlável, e deixar a situação fugir de certa forma ao controle para intimidar o adversário, na expectativa de que este recue, temendo o pior. Ou seja, temendo que quem o ameaça esteja efetivamente disposto a ir às últimas consequências, ultrapassando, se necessário, a borda fatal e arrastando-o consigo na queda.
Na verdade a ameaça envolvida nessa tática tem uma característica bastante peculiar. Para que a tática funcione a represália prometida não pode ser percebida como uma certeza absoluta. Afinal, a eficácia da ameaça decorre da percepção de que quem a faz poderá ser obrigado a cumpri-la, mesmo que, no último momento, isso seja contrário a seus melhores interesses. Para que a ameaça tenha credibilidade, portanto, é necessário que ela envolva não uma represália certa, mas o desencadeamento de um processo não perfeitamente controlável que aumente de forma significativa o risco de a represália acabar sendo cumprida. A imagem correta, portanto, não é um plano em cuja extremidade há uma borda que, se ultrapassada, leva a uma queda inevitável. Mas, sim, uma borda na extremidade de uma rampa inclinada e escorregadia. A ameaça crível é a disposição de iniciar a descida da rampa, mesmo tendo em conta que cada movimento na direção da borda envolve o risco de um escorregão fatal para ambas as partes. A atitude norte-americana na crise dos mísseis soviéticos em Cuba, em 1962, é um exemplo clássico dessa tática.
Estas idéias são tratadas na teoria dos jogos, uma área da Economia em que se analisam de forma sistemática situações em que o comportamento estratégico pode ser importante. São idéias úteis para entender melhor a natureza das dificuldades expostas pela crise de confiança que se abateu sobre a economia brasileira nos últimos meses.
A crise de confiança pode ser percebida como uma confrontação. Quer se goste ou não, o que está sendo enfrentado do outro lado é um ente extremamente complexo e multifacetado que, por conveniência, pode ser rotulado de comunidade financeira internacional. É verdade que, por ser tão complexo e não ter representação única, esse ente, por si só, não tem condições de fazer ameaças claras, explícitas e concretas a um país como o Brasil, cuja política macroeconômica foi posta sob forte suspeita.
Esta constatação pode dar alento a interpretações equivocadamente otimistas sobre a real natureza do confronto envolvido. Organizações multilaterais - como o FMI, o Banco Mundial, o BID e o BIS, bem como as autoridades econômico-financeiras dos países integrantes do G-7 - têm sabidamente um enorme peso e influência na comunidade financeira internacional. E todos eles têm externado sua preocupação quanto à possibilidade de que uma crise de grandes proporções na economia brasileira acabe precipitando a economia mundial como um todo em uma trajetória ainda mais adversa do que a que vem sendo observada desde a crise asiática. A conclusão parece tentadora. Sendo o Brasil a última trincheira capaz de deter a propagação da crise em escala global, o País estaria em situação razoavelmente confortável, à medida que sua queda imporia custos intoleravelmente altos para a economia mundial como um todo.
Esse raciocínio poderia até fazer algum sentido, não fosse a natureza dos demais integrantes da comunidade financeira internacional. Na verdade, tanto ameaças como limites explícitos são irrelevantes, porque o próprio funcionamento dos mercados financeiros, por meio de decisões descentralizadas, mas fortemente correlacionadas, acaba naturalmente impondo ameaças e limites implícitos ainda mais temíveis. Mais temíveis, porque não se conhece onde exatamente está o ponto de ruptura. Isso significa que uma crise de confiança como a que hoje está sendo enfrentada pela economia brasileira envolve uma confrontação em boa medida similar à que seria enfrentada se um adversário poderoso estivesse recorrendo a uma tática de brinkmanship. É como se o País estivesse sendo empurrado para baixo ao longo da rampa escorregadia que foi mencionada acima. Pode acabar caindo borda afora, por mais lamentável e custoso que isso possa ser considerado pelos organismos multilaterais, pelas autoridades econômico-financeiras do G-7, ou mesmo por todo o resto da comunidade financeira internacional.
Desta perspectiva, o esforço de recuperação de credibilidade que está em andamento há alguns meses no País pode ser visto como uma tentativa de escalar de volta a rampa, na expectativa de que ela se torne cada vez menos inclinada e menos escorregadia. Tendo conseguido com alguma sorte interromper o deslizamento rampa abaixo, o governo dispôs-se a empreender um esforço sério de transformação de sua política macroeconômica em uma política coerente e sustentável. É hora de abandonar idéias exóticas e ambiguidades e seguir o roteiro proposto. Quase não há margem para erros. Definitivamente, não é o momento de testar os limites.
- ROGÉRIO FURQUIM WERNECK é professor universitário de Economia no Rio de Janeiro


