Líder sem-terra diz fugir da morte
Emerson Cervi
Folha - Em 1997, o senhor se deixou prender por 35 dias sob acusação de formação de quadrilha e esbulho. Agora, a acusação é basicamente a mesma, por que fugir desta vez?
Celso Anghinoni - Eu não tenho medo da Justiça. Mas a realidade tem nos mostrado que os fazendeiros - junto com a polícia e com a conivência do governo -, não querem que a reforma agrária progrida. Por isso eles resolveram nos perseguir e nos matar. É disso que estou fugindo. Tanto que mataram meu irmão em meu lugar.
Folha - O senhor tem certeza do equívoco?
Anghinoni - Não havia motivo para matarem o Eduardo. Ele estava indo para a região de Querência do Norte para acampar. Não era do MST. Tenho certeza absoluta que aquelas balas eram para mim. A morte dele salvou minha vida. Se o Eduardo não estivesse em casa naquela noite. os jagunços tinham me matado.
Folha - O senhor também estava na casa?
Anghinoni - Eu e ele estávamos na sala de casa, assistindo televisão. Mataram meu irmão na minha frente. Me confundiram com ele porque o Eduardo ficou sentado próximo à janela e eu na poltrona do lado da parede. A luz da sala estava apagada. Os jagunços chegaram por um dos lados da janela e o primeiro que viram foi o meu irmão. Atiraram por um vidro da janela que as crianças tinham quebrado uns dias antes. Depois do primeiro pipoco eu pulei e sai correndo da sala. Não vi mais nada.
Folha - Mas a polícia prendeu um acusado de ter matado seu irmão...
Anghinoni - Esse que está preso é um laranja. Quero saber quem mandou matar. Você acha que o cara vinha de São João do Ivaí, sem me conhecer direito? Ele me confundiu com o meu irmão e ele morreu. E não é só esse caso do meu irmão. Tem o Sebastião Camargo, o Sétimo Garibaldi e outros 13 sem-terra assassinados no Paraná. Quem mandou matar? Não se sabe. Quantos fazendeiros estão presos? Nenhum.
Folha - Como ter certeza de que fazendeiros são os mandantes dos assassinatos? As mortes não podem ser resultado de disputas internas nos acampamentos?
Anghinoni - Tenho certeza que foram os fazendeiros. Só eles tinham interesse na eliminação de lideranças do MST no noroeste do Paraná. Problemas internos nos assentamentos são pequenos e não criam rixa. Nós resolvemos esses problemas com reuniões. Os assassinatos são coisa de pistoleiro mesmo.
Folha - O senhor tem como provar essa acusação?
Anghinoni - Tem coisas que eu não posso falar por falta de prova. Mas existem fazendeiros graúdos na região de Querência que contratam pistoleiros e eu sei quem são. Tanto que dias antes do assassinato do meu irmão nós denunciamos à polícia que estranhos estavam procurando por mim lá em Querência do Norte.
Folha - Isso foi denunciado apenas à polícia de Querência?
Anghinoni - No final de 1998 eu estive em Brasília, na Comissão de Direitos Humanos, denunciando o assassinato de Sebastião Camargo. Depois, mataram Sétimo Garibaldi e de novo eu fui para Brasília com outros companheiros denunciar isso. Nós falamos que os fazendeiros têm milícias armadas, que é comum ver as caminhonetes deles andando com pistoleiros pelas estradas e ninguém tomou providência. Mostramos até fotos dos pistoleiros junto com a polícia.
Folha - Quanto à polícia, o senhor tem restrições ao trabalho que vem sendo feito na investigação da morte do Eduardo?
Anghinoni - O assassino pode até ser esse Borracha (José Firmino Borracha, preso desde 17 de julho depois que a polícia identificou a arma dele como a dos disparos que acertaram Eduardo Anghinoni). Mas quem pagou ele pra matar? Ninguém respondeu ainda. Outro detalhe: no meu depoimento e no de outros companheiros dissemos à polícia que vimos uma fiorino verde metálica nas redondezas do assentamento no início daquela noite. Será que é tão difícil assim achar um carro como este? Por que a polícia não faz um levantamento? Por que só fazem escuta telefônica na cooperativa e não na UDR? Se a polícia quiser prender os mandantes dos assassinos dos sem-terra, eles fazem isso com facilidade. Eu acho até que eles sabem quem são.
Folha - Sua fuga do Paraná aconteceu no dia 6 de maio, quando a juíza Elizabeth Khater decretou sua prisão preventiva. Neste período, o senhor tem mantido contato com sua família, que ficou em Querência do Norte?
Anghinoni - Muito pouco. Se não fossem os companheiros eu não sei como estaria hoje. Mas é muito sofrido. O que me mantém com vontade de superar tudo é a certeza de que o que estamos fazendo não é errado.
Folha - Qual o fundamento da denúncia do delegado de Querência do Norte, que acabou resultando no pedido de sua prisão preventiva?
Anghinoni - Nenhum. A denúncia é contra mim e outros sete companheiros. Muito genérica e achamos que ela fere prerrogativas legais. Por isso os advogados estão denunciando a atitude como abuso de autoridade. Da primeira vez que fui preso, fiquei 35 dias na cadeia a pedido dessa juíza, porque eu teria liderado a invasão em uma fazenda. Quando colocaram as testemunhas que teriam me denunciado à polícia na minha frente, elas não me reconheceram e eu fui libertado. Agora eu volto a ser acusado de formação de quadrilha, não dá para acreditar que isso aconteça em um país que se diz democrático.
Folha - O senhor falou que está foragido porque tem medo de ser assassinado. Caso a Justiça lhe conceda o habeas-corpus, o senhor volta a Querência do Norte?
Anghinoni - Eu estou escondido dos fazendeiros. Se sair o habeas-corpus conversarei com os companheiros para saber como está a situação lá e depois decidirei se volto ou não.
Folha - O aumento no número de invasões de fazendas ainda não desapropriadas pelo Incra não seria responsável pelo crescimento da violência no campo?
Anghinoni - Não. O governo é o principal responsável por tudo o que está acontecendo. Ele não faz avançar a questão da reforma agrária como deveria. Cede à pressão dos fazendeiros e aí acontecem os conflitos. O governo não consegue dar um passo na nossa frente. Só faz o que a elite manda. Tanto que o Incra está sucateado. Estão desviando a atenção para esta Cédula da Terra, que não vai dar certo. Reforma agrária se faz com desapropriação, recursos e política agrícola coerente, não essa porcaria que temos hoje.
Folha - E as denúncias dos proprietários de fazendas invadidas sobre violência nas ocupações, inclusive o cárcere privado de empregados destas fazendas?
Anghinoni - Os fazendeiros dizem que nós somos violentos. Nunca machucamos, batemos ou perseguimos ninguém. Aliás, somos absolutamente contra isso. Eles são violentos, tanto que são os sem-terra que estão morrendo. Se fôssemos violentos pelo menos a gente se vingaria dos companheiros assassinados. Mas não pensamos nem em vingança. A vingança da morte do meu irmão será ver as áreas desses fazendeiros desapropriadas.
Folha - Então, por que a violência no campo no Paraná cresceu a ponto de termos acusações de assassinatos e denúncias de milícias armadas de ambos os lados?
Anghinoni - A partir do momento que os assentamento se viabilizaram e o comércio das cidades do interior foi aquecido, alguns segmentos da sociedade começaram a sentir pontos positivos da reforma agrária. Assim, cresceu a reação contrária por parte dos fazendeiros. Eles querem frear o MST porque nós estamos fazendo a reforma agrária, independente do governo querer ou não. Mostramos o caminho para resolver problemas da sociedade como a falta de emprego, por exemplo. Nos assentamentos se discute educação para a realidade. Em nossas escolas as crianças sabem os preços dos produtos agrícolas. Por isso os fazendeiros e a elite estão mais revoltados com o MST.
Folha - Mas a ocupação de áreas produtivas pelo MST no noroeste do Paraná também não acirrou os ânimos dos fazendeiros?
Anghinoni - Descobrimos que algumas áreas que invadimos eram produtivas. Mas houve algumas que os donos falavam que eram produtivas e quando os técnicos foram fazer o levantamento aprofundado da área não foi possível provar a produtividade. É que os proprietários sonegavam e sonegam muito imposto. Por exemplo, o proprietário da Fazenda Monte Azul saiu do Rio de Janeiro para reclamar da ocupação que fizemos da fazenda. O sujeito garantiu para mim que a fazenda não era improdutiva. Então eu falei para ele pegar toda a documentação e provar para o Incra que a fazenda era produtiva. Disse para ele que, segundo o Incra, nos últimos sete anos não havia notícia de nenhuma nota fiscal de compra ou venda de insumos na Fazenda. E assim foi com a Fazenda Santo Angelo e a Boa Sorte. Aparentemente elas eram produtivas, mas no fundo o dono não conseguia provar a produtividade para o Incra devido à sonegação de impostos.
Folha - Então a ocupação de fazendas produtivas era para testar os proprietários?
Anghinoni - Não é só por isso. O artigo 186 da Constituição determina que a propriedade que não cumpre a função social deve ser desapropriada e coloca quatro requisitos para estabelecer a função social. Não é apenas a produção. O fazendeiro também tem que preservar o meio ambiente, entre outras coisas. Desafio qualquer um a ir à região noroeste e visitar fazenda por fazenda. A grande maioria desrespeita a determinação de manter 20% de reserva florestal. E se não tem reserva ela se enquadra no artigo 186 da Constituição e tem que ser desapropriada, independente da produtividade que tiver.
Folha - Como é a produção do assentamento Pontal do Tigre?
Anghinoni - A fazenda Pontal do Tigre era de um proprietário e tinha meia dúzia de arrendatários que produziam 50 mil sacas de arroz por ano e umas 2.000 cabeças de gado. Hoje, ela sustenta 330 famílias assentadas. Na última safra nós produzimos mais de 80 mil sacas de arroz no assentamento. Eu consegui tirar 800 sacas de arroz de lucro líquido neste ano. Nos valores de hoje são R$ 16 mil que tive de lucro em uma safra. Além disso, crio vacas leiteiras. Produzo entre 40 e 50 litros de leite por dia. Vezes R$ 0,22 por litro, me dá até R$ 400,00 por mês para pagar todas as despesas de casa. Nos últimos anos eu comprei todos os móveis novos para a minha casa. Tenho televisão nova, sofá novo, jogo de quarto novo. Nós estamos mostrando que isso é cumprir função social.
Folha - Antes de ocupar a fazenda Ponta do Tigre, em Querência do Norte, e entrar para o MST o senhor foi funcionário do governo como técnico no primeiro projeto de reforma agrária estadual, em 1984, na localidade de Abapã, em Castro. Como se deu esta transição?
Anghinoni - Na época, em 1984, o secretário de Agricultura, Klaus Germer, me convidou para organizar o assentamento do Abapã. Ele me conhecia desde 1979, quando nós começamos a lutar pelos direitos dos agricultores que perderam suas terras com a usina de Itaipu. Eu sou filho de pequenos agricultores e sempre trabalhei na terra. No Abapã eu fazia de tudo no acampamento em parceria com técnicos da Secretaria de Agricultura.
Folha - Isso aconteceu no governo de José Richa. Naquele período havia mais interesse em se fazer a reforma agrária?
Anghinoni - Não. Havia um pouco mais de interesse político mas quando os burocratas subiam de Curitiba para o assentamento, apresentavam projetos que os agricultores não conseguiam entender e eu tinha dificuldade em manter o pessoal no assentamento. Tanto que o Klaus Germer ficou só dois anos na Secretaria.
Folha - Foi por isso que o senhor trocou o governo do Estado pelo MST?
Anghinoni - Não só por isso. Como eu exigia muitas coisas do governo para o assentamento, comecei a ter atrito com os burocratas da Secretaria. Depois de um tempo, em 1988, fui informado que seria transferido para outro município, mas que não moraria no assentamento, teria que ficar na cidade. Como eu sempre vivi no campo e não queria mudar de vida, falei com minha mulher e nós resolvemos acampar em busca de um pedaço de chão nosso.
Folha - De Castro vocês foram direto para Querência do Norte?
Anghinoni - Algumas famílias de conhecidos nossos que saíram do Abapã antes de nós foram para a fazenda Pontal do Tigre, que era considerada improdutiva pelo Incra. Então nós seguimos para lá. Pela experiência que tinha no Abapã eu virei um dos coordenadores da área. Em 1995 foi dada a imissão de posse aos sem-terra que estavam acampados na fazenda Pontal do Tigre.
Folha - Inclusive, foi a juíza Elizabeth Khater quem entregou a imissão de posse no assentamento Pontal do Tigre. Por que o MST reclama tanto da ação da Justiça quando são determinadas reintegrações de posse?
Anghinoni - Eu acredito que a Justiça não está tendo a visão social. Pelo contrário, tem a visão dos fazendeiros. A visão da concentração da terra. Todo aquele que se opõe a isso, num país onde a democracia é apenas formal como o Brasil, acontecem injustiças. Eu tenho direito de dizer aos companheiros que estou indo bem e aquele que está na rua da amargura passando fome deve se juntar a outros companheiros para brigar por uma propriedade. Essa experiência de reforma agrária que está dando certo vem causando tanta revolta nos fazendeiros, na Justica e no governo.Com um mandado de prisão decretado, Celso Anghinoni foge da polícia desde que testemunhou a morte do irmão Eduardo
Arquivo FolhaEm setembro de 97, depois de preso por 35 dias em Loanda, Celso Anghinoni entregou cesta de alimentos a Jaime Lerner, no Palácio Iguaçu





