Líder da seita LUS vai a júri por morte de menor
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sábado, 15 de março de 2003
Renê Muller<BR>Reportagem Local 
A dona de casa Valentina de Andrade, 72 anos, pode ser condenada por homicídio qualificado caso seja considerada culpada pelo assassinato do menor J.P., 13 anos, ocorrido em outubro de 1992, e pela emasculação (castração) de outros cinco meninos em Altamira (PA), 300 km ao sul de Belém. O júri do caso, desaforado e transferido para a capital paraense, está marcado para o dia 28 do próximo mês. Valentina, que reside em Londrina, é acusada pelo Ministério Público do Pará de participar de rituais satânicos em Altamira, onde teriam sido usados órgãos humanos, retirados dos garotos assassinados e castrados.
Na última terça-feira, a quinta turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou o habeas-corpus interposto por Arnaldo Faivro Busato, advogado de Valentina, para trancar a ação penal. Segundo o advogado, existe total ausência de indícios de que Valentina tenha participação nas mortes e nas mutilações dos menores. Além de Valentina, o MP do Pará denunciou o comerciante Amailton Madeira Gomes, os médicos Anísio Souza e Césio Brandão, o ex-PM Carlos Alberto Lima dos Santos, e Aldenor Ferreira Cardoso.
Valentina de Andrade ficou conhecida em 1992 por ter sido acusada de prática de magia negra e sacrifício de crianças. Ela foi investigada por suposto envolvimento com o sequestro do estudante Leandro Bossi, desaparecido desde fevereiro daquele ano, e também de Evandro Caetano Ramos, jovem que teria sido morto durante um ritual satânico. Os dois casos ocorreram em Guaratuba (litoral do Estado).
Valentina fundou e liderava a seita filosófica Lineamento Universal Superior (LUS). Em setembro de 92, ela e o então marido, o argentino José Teruggi, foram detidos na fronteira entre Brasil e Argentina. A suspeita era que o casal teria participado do sequestro dos garotos durante encontros da LUS ocorridos no Litoral. A prisão provisória de ambos foi decretada depois que os investigadores apreenderam desenhos satânicos e cerca de 100 fitas de vídeo com gravações de rituais, guardados pelo casal em Londrina. Os dois depois acabaram liberados por insuficiência de provas.
Clodomir Araújo, assistente de acusação no processo paraense e advogado contratado pelo Centro de Defesa do Menor Movimento Emaús (Cedeca), organização não governamental (ONG) que luta pelos direitos humanos do menor no Pará, diz que Valentina de Andrade teria comparecido a rituais que seriam ''satânicos'', e onde teriam sido utilizados os órgãos retirados dos menores. ''Existe comprovação da participação dela nesses rituais, inclusive com fotografias'', garante Araújo.
Os crimes teriam ocorrido entre 1989 e 1993 em Altamira. Um total de 19 crianças e adolescentes são citadas pelo assistente de acusação como vítimas do grupo. As vítimas eram torturadas e mutiladas. Seis delas permanecem desaparecidas. Outras quatro escaparam de ser sequestradas. Os alvos eram meninos de 8 a 13 anos, de famílias pobres, e que gostavam de brincar nas matas nos arredores da cidade. Era onde eram capturados.
Apenas seis dos casos, segundo o assistente de acusação, puderam ser devidamente apurados e denunciados pelo MP. O processo, também conhecido como o dos ''Emasculadores de Altamira'', é um dos mais comentados da história criminal recente do Pará. O caso teve reviravoltas, com a prisão temporária de alguns acusados, e andou em ritmo lento na esfera judicial.


