Lições do terror
PUBLICAÇÃO
domingo, 07 de outubro de 2001
Roberto Costa Oliveira 
O ataque nos EUA foi extremamente doloroso em seus efeitos. Em meio ao sofrimento, uma ironia que chama a atenção. Apesar de terrível, podemos dizer que o ato foi muito bem sucedido, pelos critérios de quem o perpetrou. Do outro lado, além do luto pelas vidas perdidas, podemos analisar friamente os atentados suicidas e tirar daí algumas lições organizacionais. O ''sucesso'' cabal da missão nos ensina pontos capitais do funcionamento das organizações.
Houve planejamento meticuloso, seguido à risca. Os ataques foram planejados de forma cuidadosa, com muita antecedência. Foram gastos alguns anos para que tudo estivesse preparado. Estudaram a maneira de destruir as torres feitas para resistir a colisões, incêndios e tremores. Juntaram tudo isto em um planejamento consistente e o seguiram. Se o choque com as torres acontecesse acima de 800 km/h, a turbulência seria tão forte diante da parede que tiraria o Boeing 767 da trajetória. Por isto eles voaram a uns 450 km/h e optaram por uma trajetória curva. Atingindo o 103º e 93º andar, o incêndio causado por tanques dos aviões cheios de querosene levou a temperatura de mais de 1000 graus a tornar o aço estrutural maleável. Maestria no planejamento, e execução à risca para atingir os objetivos, é a lição que podemos aplicar às organizações ''do bem''.
Houve trabalho em equipe. Alguém ou alguns foram cérebro. Outros estudaram a engenharia das torres e do Pentágono. Pelo menos 4 a 6 deles se tornaram pilotos comerciais capazes de conduzir Boeings aos seus alvos. Com certeza muitos membros da organização Al-Qaeda (A Base) participaram ativamente dos preparativos. Foi um trabalho concatenado, harmônico, cada um tocando seu instrumento, cada um fazendo a sua parte.
Houve ousadia. Eles visaram o quase-impossível. Se alguém contasse o que iriam fazer, qualquer ''ponderado'' acharia excessivamente arriscado. Muitas vezes organizações ficam no limbo por falta de ousadia. Não querem correr riscos. Também não atingem grandes coisas. Traçar metas ousadas, eloquentes, arriscadas, e acreditar piamente em sua exequibilidade, mesmo em face de grandes riscos, é a lição.
Eles busacaram objetivo com determinação. O caminho dos terroristas foi longo e árduo. Já pensaram que eles tiveram que aprender inglês, mudar para os EUA, mudar de endereços diversas vezes, não se envolver com outras coisas atraentes, não deixar transparecer o propósito e por fim sacrificar suas vidas? Frequentemente uma organização traça planos, e ao enfrentar dificuldades se desvia. A lição aqui é buscar atingir em cheio os objetivos organizacionais ou pessoais com determinação. Nas palavras de Jack Welch, em sua recém-publicada autobiografia: ''Empenhei minha mente, meu coração e minhas próprias entranhas naquela viagem, todos os dias dos quarenta e tantos anos em que tive a sorte de fazer parte da GE''.
Houve comprometimento pela motivação. Eles não cumpriram sua missão por remuneração. Eles estavam motivados por uma fé extremista, e por ódio. ''Ser morto pela causa de Alá é uma grande honra. Nós amamos este tipo de morte tanto quanto vocês gostam de viver'', disse Osama bin Laden à CNN, em 1997. Houve liderança inspirativa. Através de seu exemplo de vida combatente, de seu fervor islâmico extremista, e de seus recursos pessoais, ao que tudo indica o líder Bin Laden inspirou, motivou e enviou estes homens a entregarem totalmente suas vidas a uma causa. Bin Laden crê que ''os infiéis'' são a fonte dos seus problemas e dos de seu povo. Este é um claro contraste com muitos líderes empresariais que não vibram com suas causas, e frequentemente não têm nenhuma meta a não ser o lucro.
O fator surpresa. Eles deixaram o mundo inteiro estupefato, chocado. Ninguém podia esperar um ato tão audacioso. Tudo era novo, não havia sido feito antes. Aí está outra lição: como diz Tom Peterson, ''buscar o uau!'', realizar o nunca antes tentado, em dia que menos esperam, sem o menor aviso.
Ninguém podia saber de nada, mas este grupo estava com a comunicação interna azeitada. Eles não podiam se dar ao luxo de má comunicação, do mau entendimento. Muito menos de vazamentos. Eles tinham conhecimento daquilo que precisavam para levar a cabo sua missão. Se agiram tão bem, para causar um tão grande mal, por que não podemos nós, em nossas organizações, agirmos igualmente bem para materializarmos o bem para o qual somos capacitados?
- ROBERTO COSTA DE OLIVEIRA é empresário em Curitiba


