Recentemente esteve em São Paulo William Bratton, ex-chefe de polícia de Nova York, dando palestras na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), sobre violência e segurança. Procurou mostrar o sucesso de sua gestão na organização policial, daquela cidade, que diminuiu o índice de infrações penais. A platéia era composta, em grande parte, por empresários, integrantes da PM e da Polícia Civil.
Bratton, apresentado por órgão de imprensa como ‘‘xerife americano’’, sempre foi policial municipal. Em 1970, era sargento de polícia de Boston. Mais tarde, pelas mãos do prefeito de Nova York, chegou à chefia de sua polícia, de onde saiu em 1996. Depois de dar números sobre investimentos em segurança, disse ter procurado enfrentar inicialmente infrações menores. Para ele, a polícia requer gastos, e o seu lucro é só a redução de crimes. Ele encontrou a polícia de Nova York no sistema dos ‘‘três R’’ e levou-a ao sistema dos ‘‘três P’’.
O primeiro sistema (3R) era assim: 1) reação rápida após crime, sem analisar os problemas originários; 2) ronda preventiva aleatória, como se não houvesse objetivo; 3) repressão investigativa, ocupando-se do fato ocorrido. O segundo sistema (3P) ficou assim: 1) parceria com a comunidade, recebendo sugestões e auxílio para melhorar o policiamento; 2) problemas resolvidos, com viaturas, comunicações, armas etc., e resultados divulgados; 3) prevenção maior, com planejamento, visando à diminuição dos crimes. É fácil assim deduzir medidas para diminuir a violência e o crime: a) fiscalizar e coibir fatos menores como algazarra fora de hora, grafiteiros, rachas de carros e motos, bebidas a menores etc.; b) desenvolver o policiamento comunitário, tornando a polícia de rua mais amiga e acessível; c) aumentar a prevenção, com o policial atuando de forma planejada, e não patrulhar aleatoriamente; d) procurar desenvolver métodos de reduzir crimes, e não só reagir a eles; e) motivar os policiais com salário digno e perspectivas de ascensão.
Lá em NY o policial em início de carreira entra ganhando US$ 3.000, e em cinco anos de atividade passa a perceber US$ 5.000 e se ocupar cargo de confiança, US$ 7.000. Além disso enfrenta vários testes periodicamente, e se cometer falta grave é demitido. A polícia brasileira está degradada pelos salários miseráveis, numa tentação ao crime organizado. O efetivo é pequeno e, ainda por cima, mal treinado. De resto, as pessoas nascem, criam-se, vivem e morrem nos municípios.
Há, desde 1994, proposta da OAB para que a polícia ostensiva seja municipalizada, porque é municipal o policiamento da imensa maioria das cidades (como Nova York). Mas como aplicar aqui no Brasil o que deu certo em NY, se aqui há duas polícias estaduais (uma delas militar), e os governos querem o comando de seus pequenos exércitos, pouco importando a segurança do povo?
- VALDIR DE CÓRDOVA BICUDO é investigador de polícia e relações públicas da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo

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