Lições de economia - Rubem Azevedo Lima
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 15 de dezembro de 1998
Rubem Azevedo Lima 
Em cada momento histórico existem boas leituras que podem ajudar a compreender os problemas de qualquer país. E isso, obviamente, sempre facilita o trabalho dos que têm condições de contribuir para solucioná-los. O Brasil, hoje sob o foco das atenções de cientistas políticos, economistas e sociólogos, nacionais e estrangeiros, não constitui exceção à regra. A dificuldade maior, no caso, talvez seja a escolha, na bibliografia brasiliana, das obras realmente essenciais para que os brasileiros entendam seu País.
Uma delas é o Poder dos Trópicos, livro de Gilberto Felisberto Vasconcellos e Bautista Vidal. Os autores constatam nossa dependência total a um modelo energético incompatível com as potencialidades que temos e confirmam, além disso, estarmos bloqueados pelo sistema financeiro mundial. Segundo eles, a energia suja, dos combustíveis fósseis, está perto do fim, e o futuro da humanidade, nesse particular, repousa sobre a biomassa, produzida pela energia solar, nas plantas.
A maior reserva florestal do mundo está na Amazônia, em grande parte situada no Brasil. Trata-se, pois, de riqueza renovável, generosamente, pelo sol dos trópicos. Mas com a nova ordem econômica mundial - que impôs aos países emergentes a abertura compulsória de seus mercados à especulação, o Brasil endividou-se e acabou por vender seus ativos, caindo, com isso, na teia do sistema financeiro global. O livro, lançado sábado em Brasília, renova as esperanças num futuro melhor para o País.
Outra obra elucidativa é O que o Tio Sam realmente quer, do livre pensador norte-americano Noam Chomsky, que, em poucas páginas, fala da estratégia do capitalismo internacional para impedir o desenvolvimento de países ricos em recursos naturais, como o Brasil. A guerra fria entre EUA e a URSS atrelou os satélites dessas duas potências a seus respectivos interesses mundiais.
Segundo Chomsky, as autoridades americanas sabiam que os soviéticos não teriam como propagar o marxismo no mundo, mas admitiam tal hipótese para inibir, quando necessário, as reformas sociais e desenvolvimentistas em seus satélites, sob a acusação de serem projetos comunizantes.
A gênese desse processo de dominação está explicada pela ManiSre de Voir (nº 42, de novembro-dezembro), de Le Monde Diplomatique, intitulado Anatomie de la Crise FinanciSre, com capítulos também esclarecedores sobre o Brasil e o mundo, como os referentes à exportação que empobrece, às imposturas do livre comércio etc.
Igualmente imperdível é o nº 13, volume 267, da revista The Nation, pelo artigo em que o economista Richard Parker, de Harvard, informa que, na última década neoliberal dos EUA, a dívida pública desse país multiplicou-se por cinco (a do Brasil aumentou seis vezes em quatro anos). Mas, apesar do neoliberalismo, acrescenta, o setor público dos países capitalistas ricos ainda responde por quase 50% da soma de seus respectivos PIBs. No Brasil, tal setor representa, hoje, apenas cerca de 20% do PIB.
São leituras importantes. Mas, sem desdouro delas, é indispensável ler também os jornais. Um deles falou do assalto a um ônibus lotado de passageiros numa cidade-satélite de Brasília. Os assaltantes roubaram, ao todo, R$ 82. Isso mesmo: R$ 82! Às vezes há mais lição de economia numa nota de polícia do que no economês dos economistas.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília


