Lições de Dercy
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 09 de dezembro de 1997
J. Roberto Whitaker Penteado 
Em função de uma perversa dor crítica, Jô Soares - nosso melhor apresentador de talk-shows - andou impossibilitado de fazer o seu programa. Isso fez com que fossem reapresentadas algumas entrevistas, como a da veterana Dercy Gonçalves, que acabei assistindo dias atrás.
A velha senhora é, possivelmente, uma das poucas pessoas capazes de deixar embatucado o gordo, com suas colocações francamente inesperadas, frutos de nove décadas de irreverência.
Mas, à parte o surrealismo de algumas pontuações, um dos seus relatos tinha conteúdo inegavelmente instrutivo. DG contava sobre o seu trabalho, numa peça montada em São Paulo, que não estava tendo bom resultado de bilheteria. A atriz decidiu promover pessoalmente o espetáculo e saiu a campo, com o caderninho de endereços. Procurou o empresário Antonio Ermírio de Moraes, que adquiriu 300 entradas para distribuir aos funcionários de suas empresas. O governador Mário Covas ficou com outras 50, bem como a diretoria dos supermercados Paes Mendonça, o grupo Bradesco e outros de que não me lembro, mas que foram citados, um a um, durante o programa. Havia, ainda, a Transbrasil, que ofereceu as passagens de que Dercy necessitava para seus deslocamentos pelo Brasil.
A história teve o seu happy end, no fato de que a atriz representou diante da casa cheia, embora apenas 15 ingressos fossem vendidos na bilheteria. Mas o importante é que não se tratava de caridade. Detentora de uma marca individual forte, ela conseguiu, através da promoção e da venda pessoal, desenvolver o marketing do seu produto. Experiente, possivelmente intuitiva, canalizou para seus objetivos a energia transacional da economia de mercado.
Foram investimentos relativamente pequenos para as instituições que proporcionaram benefícios aos seus funcionários - ou que colheram outros resultados, através da divulgação publicitária, como a que ocorreu no programa do Jô, ou mesmo nas menções nessa e em outras colunas da imprensa.
As reflexões sobre a entrevista fizeram-me lembrar de uma experiência recente, num seminário sobre cultura, onde os participantes, com quase unânime monotonia, encerravam suas palestras com propostas para que o poder público tomasse esta ou aquela iniciativa, financiasse este ou aquele evento ou espetáculo, ou montasse novas repartições públicas, na forma de museus, teatros, bibliotecas, etc. Muitos, certamente, destinados apenas a abrigar mais vazio e o silêncio de visitantes desmotivados e, por isso, virtuais.
A iniciativa individual e privada não é, certamente, o caminho mais fácil. Há cerca de 30 anos, quando visitei países situados atrás da antiga cortina de ferro, as cidades eram calmas, apesar de feias e enfumaçadas e as pessoas saíam muito cedo do trabalho para assistir ao futebol no meio da semana. Era difícil achar um táxi estatal e os motoristas não se importavam de receber o preço da corrida - só insistiam na gorjeta. Simples detalhes de economias - como a da ex-União Soviética - em que os funcionários do governo tinham de tomar 15 milhões de decisões isoladas diariamente e os cidadãos ficavam dispensados de pensar.
Fenômenos da cultura. Não daquela, que é fruto do esforço criativo de uma infinidade de indivíduos e que torna a vida de todos mais interessante e mais rica. Mas da outra, constituída por hábitos e tradições alicerçados nas fraquezas e vícios originadas na opressão e na desigualdade e perpetuados através dos séculos, pela falta de questionamento.
Dou a palavra a um outro, entre os gurus da contemporaneidade: durante a ditadura militar, Carlito Maia enviava aos amigos um cartão com a única palavra - resisto. E, quando lhe perguntavam como agir, explicava sua estratégia para enfrentar as dificuldades: Quando me fecham as saídas, escapo pelas entradas.


