Todas as noites, na hora do intervalo, o som contagiante do rap invade o pátio da escola. Aos poucos, as dezenas de jovens que vieram de mais um dia duro de trabalho ou simplesmente de mais um dia triste de privações começam a se movimentar ao som da música. Por alguns momentos, eles se esquecem de tudo e demonstram uma alegria contagiante. A cena, inimaginável na cabeça de educadores mais conservadores, tem sido uma das alternativas encontradas pela direção do Colégio Estadual São José, localizado na entrada do Jardim Nossa Senhora da Paz, na zona oeste de Londrina. O bairro é um dos que registram maior número de homicídios atualmente em Londrina.
O São José faz parte de um grupo de escolas públicas da periferia que têm adotado uma nova política para driblar problemas como vandalismo, evasão, brigas, desrespeito aos professores e outras formas de violência no ambiente escolar. A fórmula não tem muito segredo. O princípio básico é respeitar e fazer-se respeitar em vez de reprimir.
Os diretores do São José lembram, porém, que ao longo da confecção da receita entra também outro ingrediente fundamental: a capacidade de enxergar nas crianças e jovens a carência de afeto, quase sempre camuflada sob o comportamento agressivo. ''Tem gente que se assusta ao nos ver abraçados a alguns alunos. Mas a filosofia da escola hoje é esta a da educação na base do afeto'', diz a diretora-geral do colégio, Rosa Maria Tanios Yatsu.
A decisão de mudar a metodologia de ensino dentro da instituição foi tomada no início deste ano, quando o clima na escola estava tenso. ''Os alunos estouravam os cadeados para desligar a chave-geral e apagar as luzes, quebravam vasos sanitários, eram tantos os atos de vandalismo que as aulas tinham que ser encerradas mais cedo'', recorda a diretora.
Foi quando Rosa e o outro diretor da escola, Ademir Viegas Junior, decidiram adotar a ''política da boa vizinhança''. ''Percebemos que o enfrentamento não levava a nada. Direções anteriores tentaram impor a autoridade e acabaram sofrendo ameaças, intimidações. Resolvemos mudar de tática. Hoje muitas mães são chamadas a trabalhar na escola como voluntárias e a participar da APM (Associação de Pais e Mestres)'', explicam os diretores.
Para Rosa, a conquista do respeito só aconteceu quando os alunos muitos acostumados a conviver desde cedo com a constante exclusão e preconceito passaram a sentir-se respeitados e inseridos nas iniciativas da escola. A diretora ressalta, porém, que respeitar não significa perder a autoridade. ''Temos que estar sempre atentos para que eles não dominem a escola. Eles nos testam o tempo todo'', afirma Viegas.
De maneira geral, a mudança no relacionamento com os alunos faz com que eles tenham prazer em ir para o colégio. A escola torna-se o ponto de encontro destes adolescentes. Aproveitando a deixa, instituições como o São José têm oferecido atividades complementares que visam segurar o aluno o máximo de tempo possível dentro da escola. Gincanas culturais, torneios, campanhas de arrecadação de alimentos para doar às famílias mais carentes, são ações que surpreendem pelo poder de mobilização.
No Colégio São José, os diretores afirmam que atualmente muitos dos alunos que haviam desistido de estudar têm procurado a escola querendo voltar. Também foram abolidas do colégio as inúmeras suspensões. Na opinião dos diretores ''o aluno com problemas disciplinares adora suspensão e ela não resolve nada''. Viegas afirma ainda que seus alunos ''vivem numa linha'', uma divisória muito sutil entre a marginalidade e a vida dentro dos limites da cidadania. ''Se damos a suspensão, ele cai na marginalidade'', defende. Para o diretor, ao contrário das escolas particulares que preparam o aluno para passar no vestibular, a função da escola pública é muito específica: preparar o cidadão para a vida.

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