Liberdade de pensamento: temos motivos para celebrar?
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sábado, 13 de julho de 2019
Espaço Aberto 
Artigo 5º, inciso IV, Constituição Federal do Brasil, 1988: a liberdade de pensamento é considerada um direito fundamental. Também está prevista na Declaração Universal dos Direitos Humanos, no artigo XVIII. Está, portanto, sacralizada e protegida em convenções e cartas magnas das principais democracias mundo afora. E, neste 14 de julho, data em que se celebra o Dia da Liberdade de Pensamento, há motivos para comemorar?
Nunca antes na história do mundo as pessoas se sentiram tão empoderadas a expressar seus pensamentos e ideologias. Ponto positivo! Nem sempre foi assim. Houve tempo, não muito distante, em que era proibido falar sobre determinados assuntos, discutir sobre ideologias, sejam políticas ou de qualquer outra natureza, e até se reunir em grupo era considerado crime. Estou me referindo a ditaduras (no Brasil, inclusive), mas também a “democracias”. Eram tempos perigosos.
Hoje, não podemos nos queixar. Vivemos tempos diferentes. De certa forma, temos espaços para nos expressar. Este, por exemplo, no qual você me lê, é um deles. As redes sociais também potencializaram e deram vazão a pensamentos que outrora não poderiam ser compartilhados em outros lugares. Deram voz às pessoas. O que é bom, todavia, também pode ser perigoso. Pois a sensação de poder dizer tudo o que quiser sem consequências é falsa e pode nos trazer problemas.
Por isso, defendo que o respeito e o bom senso devam prevalecer na hora de expressarmos nossos pensamentos. Somos livres, mas nossa liberdade tem limites cerceados pelas leis. Posso discordar de algo ou alguém. Entretanto, não preciso ofender o opositor das ideias. Infelizmente, estamos virando inimigos uns dos outros justamente por não entendermos que a liberdade de pensamento e expressão existem, são valiosas e têm limites estabelecidos pela harmonia social.
Até quando não perceberemos isso ou fingiremos não perceber que precisamos de mediadores para não usarmos mal nossa liberdade de pensamento e expressão? Os jornalistas, por exemplo, são preparados para fazer esse papel. Nunca antes na história do mundo foram tão necessários. Assim como os professores, que mediam o conhecimento e fundamentam o pensamento crítico e livre.
Acontece que esse papel de mediador, justamente uma característica da educação 4.0 e tão necessária já no presente do nosso processo educacional, muitas vezes é confundido com doutrinação. Mais uma vez estamos demonizando um direito que é fundamental: expressar nossas opiniões e manifestar nossa liberdade de expressão ajudam a construir uma democracia mais sólida e madura. Mais que isso: contribui para que as gerações vindouras tenham conhecimento sobre diferentes aspectos e pontos de vista, tão importantes para a formação do próprio pensamento.
Quando aplicado, desse direito provêm muitos outros, tais como a liberdade religiosa, a liberdade sexual, a liberdade ideológica e a liberdade política, entre muitas outras. Veja: não é fazer o que quiser. Ao contrário, é poder escolher dentre tantas possibilidades, sem que essas escolhas afetem o direito de outros. Sobretudo, é ter o poder de escolha! E na sociedade em que vivemos não podemos escolher que religião seguir? Afinal, essa escolha não costuma interferir no direito de outras pessoas poderem também ser livres para escolher sua crença.
O mesmo vale para a liberdade sexual (qualquer pessoa pode escolher com quem se relacionar ou de que forma fazer isso, ainda que haja quem pense o contrário), para a liberdade ideológica (o pensamento político dos outros não é pior porque é diferente) e com a liberdade política (o mesmo vale para as escolhas partidárias e atuações práticas).
Enfim, temos muito o que comemorar. Mas, também temos muito o que avançar. Neste momento, precisamos tomar muito cuidado para não retrocedermos. É hora de proteger esse direito fundamental, guardando e respeitando o direito do outro.
TIAGO MARIANO é formado em História pela UEL (Universidade Estadual de Londrina), pós-graduado em Ensino e História


