LIBERAR OU NÃO? - ''Há uma visão muito errônea em relação à maconha''
PUBLICAÇÃO
sábado, 09 de agosto de 2008
Thiago Nassif<br>Reportagem Local 
Aos defensores da maconha, que se somam às comunidades no Orkut e campanhas pela legalização, duas duchas de água fria: nos últimos dias, estudo da Universidade do Mississippi, nos Estados Unidos, mostrou que o efeito psicotrópico da droga duplicou em 25 anos. Simultaneamente, a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), mostrou, em recente pesquisa com 128 pessoas com dependência ou abuso de maconha, maior vulnerabilidade para adolescentes.
Os efeitos são os piores. Uma das responsáveis pela pesquisa realizada no Brasil, a psicóloga e mestre em psiquiatria Maria Alice Novaes faz o alerta: os adolescentes usuários de maconha tiveram desempenho pior em relação à atenção, memória e ao funcionamento do cérebro. ''Uma pessoa ter começado a utilizar a maconha precocemente, quando o cérebro está em desenvolvimento, faz com que ela tenha uma chance maior de apresentar danos cognitivos do que uma pessoa que começou a usar maconha depois que o cérebro já está totalmente formado e fechado'', sustenta.
Muitos dizem que a maconha é uma droga ''inócua''. Qual a melhor resposta para quem hasteia a bandeira favorável à legalização da maconha?
O que trouxemos e tentamos, sempre, é mostrar, através de dados objetivos, que a maconha é uma droga, causa dependência e pode trazer danos cognitivos com seu uso frequente. É interessante fazer uma correlação com o álcool, que no momento tem todo esse frenesi em torno da tolerância zero: se você toma um chope, após uma hora isso já está metabolizado e você pode dirigir normalmente. No caso dos usuários de maconha, a pessoa pode ficar até quatro, cinco dias em abstinência que ainda terá déficits cognitivos correlatos ao uso. Hoje em dia a maconha é uma droga que está muito disponível e figura no ranking das mais utilizadas no mundo.
Acredita que há uma ''banalização'' da droga?
Sim. Há uma visão muito errônea em relação à maconha: muitos dizem que é uma planta, uma erva, e a defendem. É importante lembrar que se trata de uma droga que tem uma substância ativa que é o tetrahidrocanabinol (THC). Essa substância age diretamente no sistema que chamamos de recompensa cerebral, causando a dependência. As pessoas precisam estar cientes disso. Em se tratando da experimentação, se ela infelizmente houver, que seja feita eventualmente tardiamente, devemos evitar a precocidade. Experimentar não traz de cara o déficit cognitivo, mas o começo no vício, como bem sabemos, rende uma continuidade.
Há uma controvérsia muito grande em relação ao uso da maconha e seus danos cognitivos. O que o estudo trouxe de novo?
Para tentar responder a essa pergunta, estudamos uma população de usuários pesados e crônicos de São Paulo. Identificamos que os usuários que começaram a utilizar a maconha precocemente, isto é, antes dos 15 anos de idade, tiveram um resultado pior em relação à atenção, à memória e ao que chamamos de funcionamento executivo do que as pessoas que começaram a utilizar a maconha depois dos 15 anos.
Qual a explicação para essa desvantagem dos mais jovens no vício?
O fato de o cérebro estar em desenvolvimento até os 18, 20 anos. Há uma parte frontal do cérebro que só finaliza o processo de amadurecimento no início da vida adulta. Uma pessoa ter começado a utilizar a maconha precocemente, quando o cérebro está em desenvolvimento, faz com que ela tenha uma chance maior de apresentar danos cognitivos do que uma pessoa que começou a usar maconha depois que o cérebro já está totalmente formado e ''fechado'' em termos de memorização e processo de amadurecimento.
Em linhas gerais, o que a maconha traz de ''saldo'', à vida de seu usuário?
Um saldo bastante negativo e uma sucessão de efeitos: há a lentificação do processamento de informações, alterações perceptivas, visuais, modificações do comportamento. Depois do uso contínuo, isto é, pessoas que utilizaram 5, 6 mil baseados na vida, surgem os problemas crônicos.
Esses danos são irreversíveis?
Ainda não temos essa resposta. Para dizermos que as pessoas tiveram, de fato, um déficit cognitivo, precisaríamos que ficassem um longo tempo em abstinência. Nós avaliamos quando as pessoas estavam entrando no processo de tratamento. Para que a gente possa dizer que elas realmente ficaram com déficit cognitivo, seria necessário detectar após um longo período em abstinência. O que a literatura tem mostrado é que mesmo depois de 28 dias em abstinência, ainda persiste um déficit. Nós avaliamos pessoas que estavam em média cinco dias abstinentes e elas apresentavam déficit cognitivo. Vamos continuar a estudar essa população e devemos ter resultados até o final do ano que vem para poder apresentar.


