Lerner, venha ouvir o galo cantar!
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 01 de maio de 1997
Walmor Maccarini 
O campo sobreviverá sem as cidades mas as cidades perecerão se o campo se exaurir. Como esta verdade custa a entrar na cabeça dos homens que governam este país!!! Por isso nunca se conheceu um projeto agrícola partido das esferas governamentais. Porque para os governantes é mais in empreender viagens contínuas ao exterior do que calçar as botinas e dar uma olhada para ver como vai a lavoura.
O Brasil tem vocação agrícola, pelas terras férteis que possui - as aqui do Sul com suas características muito especiais, as do Cerrado (que é todo o grande triângulo central e que abarca meio Brasil em extensão territorial), ainda por explorar convenientemente, e as do árido Nordeste, prontas para que se lhe abram as entranhas e se faça jorrar a água.
O Paraná é fundamentalmente um Estado agrícola, mas muitos imaginam que temos que povoá-lo de indústrias, porque elas geram empregos. Parece que a agricultura e todos os seus segmentos (sem falar da agroindústria) não os geram! As fábricas podem, sim, conviver com a agricultura, mas elas seduzem com o fascínio das amantes enquanto se despreza aquela que é a leal, a aliada e a generosa companheira que nos dá o sustento: a agricultura.
Este brado é para fazer coro com o manifesto dos 70 pesquisadores do Instituto Agronômico do Paraná, publicado nesta página sexta-feira passada através de artigo assinado por três destacados técnicos daquela instituição. É que o Instituto Agronômico, que tem toda a infra-estrutura de uma Universidade Rural, está capenga e moribundo, a ponto de ver-se na iminência de fechar as portas e entregar-se. Porque o governador Jaime Lerner é um urbanista! Que, como todos os mortais, alimenta-se à mesa todos os dias mas deve imaginar que o arroz, o feijão, o milho, a soja, a batata, são produzidos em fábricas e saem das linhas de produção na quantidade e no tamanho que se quiser. Não é gracejo nem deboche, mas o governador Jaime Lerner só agora nestes meses recentes (graças ao Movimento dos Pés Vermelhos) veio conhecer alguma coisa da vida rural. Prefeito de Curitiba que sempre foi, acabou guindado ao governo do Estado mas nunca ouviu o galo cantar e nunca perdeu seu sotaque de urbanista. Ela pensa cidades. O cantar do galo, o mugido da vaca e o assovio do vento vergando as plantas são histórias da carochinha, por isso ele não consegue imaginar-se enfiado em botinas palmilhando o interior e conversando com a gente da roça.
O manifesto dos pesquisadores do Iapar diz: É constrangedor ter que explicar aos governantes a obviedade da importância de investir em pesquisa agrícola.
Ora, as fronteiras rurais estão ficando cada vez menores, pelo aumento da população e a expansão das cidades - então é preciso que alguém se ocupe de estudar fórmulas de aumentar a produtividade em áreas cada vez mais pequenas. Mas os governantes, pela cegueira e pela insensatez, não pensam isto. Omitem-se, desprezam.
Estes pesquisadores, que tão pouco ganham mas não perdem a paixão pelo que fazem, porque gostam (eles e esses teimosos heróis do campo que insistem em plantar e colher), vêm a público para denunciar a deterioração que este importante órgão de pesquisa está sofrendo. Dizem: É de tal ordem a degradação institucional, do ponto de vista gerencial, financeiro e de administração de seus recursos humanos, que há realmente um sério risco de esta crise culminar em colapso. Denunciam governos anteriores e ingerências políticas completamente estranhas aos objetivos da instituição, a indicação de administradores despreparados e a incompreensão no âmbito da Secretaria da Agricultura (que rege o Iapar). Criticam a transformação do Instituto Agronômico, no governo anterior, de fundação em autarquia, o que ocasionou a cessação de toda e qualquer possibilidade de gerir recursos humanos e de pesquisas.
Sabemos que PhDs dessa verdadeira Universidade Rural recebem salários de apenas R$ 1.200, brutos. Inacreditável! Então eles vão se bandeando para os Estados Unidos e para o Chile (sim, o Chile). Lá os querem e os valorizam. Ontem soubemos que acabam de ser demitidos, para enxugamento da folha de pagamentos, 103 técnicos altamente qualificados da Emater, o órgão encarregado do extensionismo dos resultados da pesquisa. O que será de nossa agricultura com uma tal mentalidade?!
O governador Roberto Requião foi o iniciador da derrocada do Iapar, com sua política de autarquização, é o que dizem todos. Então pergunta-se se Jaime Lerner quer se igualar a Requião!
O Movimento dos Pés Vermelhos não deveria ter se estancado tão rápido. É hora de retomá-lo, agora para salvar o Instituto Agronômico. Em off, todos se queixam do secretário da Agricultura, a quem incumbe, por regimento, gerir o Iapar e preservá-lo.
Se queriam Neco Garcia Cid (presidente da Sociedade Rural do Paraná) para presidir o Banestado, por que não fazê-lo secretário da Agricultura!? Ele é homem de pecuária mas sabe de agricultura e tem compreensão do que representa a pesquisa agrícola.
O governador JL não precisa abandonar Curitiba, mas que divida suas atenções também com os caipiras do interior. Não pode deixar que morra de inanição o Instituto Agronômico, tão difícil de obter e implantar, e o foi por obra e graça de gente daqui mesmo: o intrépido Celso Garcia Cid mais Francisco Sciarra, João Ribeiro Jr. e João Milanez.
Curitiba já tem o seu prefeito, que se encarrega da cidade. O governador tem que cuidar é do Paraná. Foi para isso que o elegemos!


