Lerner: por que devemos recusá-lo
Lerner: por que devemos recusá-lo
Luiz Carlos Hauly
Tenho afirmado que a vida pública é minha vocação. Não sou daqueles que têm vergonha de afirmar-se político profissional, escondendo-se atrás de rótulos, dentre os quais o mais opaco é o de técnico. Dedicar-se à vida é uma das vocações mais dignas do ser humano, como está claramente expresso na Gaudim et Spes, documento importante do Concílio Vaticano II. Dedicando-me à causa pública, procurei construir uma história pessoal e política marcada pela coerência. No MDB, militei na resistência à ditadura, ajudei a reconstruir a democracia no PMDB e luto por um Brasil moderno e justo no PSDB. Ao longo de minha vida, batalhei ao lado de grandes figuras da vida política de nosso Estado. Olivir Gabardo, José Richa, Álvaro Dias, Hélio Duque, dentre muitos outros. Como deputado federal procuro dar minha contribuição aos esforços do governo de Fernando Henrique Cardoso, ciente de que os caminhos da social-democracia são os mais campatíveis com as aspirações e necessidade de nosso país.
Por tudo quanto precede, não posso senão manifestar-me contrário ao ingresso de Jaime Lerner no PSDB. Para clarificar minha posição gostaria de articulá-la em trorno a três eixos que considero determinantes para a análise da vida pública de qualquer um: o político, o administrativo e o ético.
Do ponto de vista político, Jaime Lerner é um homem cuja trajetória está intimamente relacionada ao período mais escuro da história do Brasil. Desconhecido que era, foi lançado na arena política por obra e graça do arbítrio, recebendo de mão-beijada dois mandatos como prefeito de Curitiba. Umbilicalmente ligado aos braços políticos da ditadura, à Arena e depois ao PDS, quando percebeu ventos novos apressou-se a buscar abrigo num partido de esquerdas, o PDT. Nele tem tido uma atuação tão ambígua que até hoje o Paraná não sabe se apoiou Leonel Brizola ou Fernado Henrique para presidente da República. Acostumado a servir-se, mas jamais a servir, usou parasitariamente o PDT enquanto pôde, em função de seus próprios interesses e de seu grupo, tentando descartar-se dele agora como se fosse uma laranja chupada, querendo fazer do PSDB seu novo hospedeiro.
Do ponto de vista administrativo, Jaime Lerner está sendo um flagelo para o Paraná. Impossível sintetizar em poucas linhas os infindáveis desacertos de um governo que a sabedoria popular já denomina de virtual, pois todos sabem que quando se desliga a TV o governo Lerner acaba. Para citar só alguns dos desastres administrativos, lembremos a dilapidação do patrimônio público da Copel, promovendo a venda de ativos para financiar o custeio; as operações inexplicáveis do Del Paraná; o feito inédito de, em dois anos, destruir o Banestado (basta ver o balanço de 96); o estado lastimável das contas públicas; o abandono, não só do Interior, mas até da Capital (que se reflete no aumento crescente da criminalidade); as obras entregues sem licitação aos amigos do peito (como é o caso do Canal Extravasor) e os recursos doados generosamente sem licitação (como o escandaloso caso de Faxinal do Céu). Isto tudo sem falar no segredo suspeito que cerca o acordo com a Renault, cuja instalação no Paraná é bem-vinda, mas cujas condições deveriam ser expostas claramente, a fim de que não fiquem dúvidas acerca dos seus benefícios. A estrutura pública do Paraná está sendo desmantelada, transformada em ruínas, pelo descaso, pela arrogância e pela insensibilidade de um governador cuja única preocupação é fazer da mídia o seu contraponto narcísico, quando as imagens produzidas pretendem substituir a realidade, a ponto de não se saber mais o que é verdade e o que é fantasia nessa miragem em que se transformou o governo Lerner.
Finalmente, eticamente é impossível avalizar os procedimentos de Jaime Lerner. Um dos primeiríssimos atos de seu governo foi nomear o cunhado para o Tribunal de Contas, o que já sinalizou por onde caminhariam suas ações. Os recursos drenados para os meios de comunicação, enquanto escasseiam para obras públicas, para a educação e para a saúde, constituem um escândalo que, quando for conhecido em sua inteireza, provocará indignação nacional (só no mês de novembro, uma única agência de publicidade, de parente do governador, levou R$ 200.000.00...). Na quinta-feira, ao reunir prefeitos no Palácio, afirmou em alto e bom som que os recursos fluiriam para os prefeitos que estivessem com ele, enquanto os que fossem contra o Paraná (isto é, que não seguissem suas ordens) mereciam isto (elevando sua muleta para o alto, como se fosse um cacetete). Este é o princípio ético que norteia as ações de Lerner: para os amigos tudo, já para os adversários..., como se o Paraná não passasse de um curral obidiente aos seus filhos.
O PSDB é um partido que nasceu da vontade de se ter um instrumento político firmemente alicerçado na ética, na democracia e na justiça. A vida política pregressa e atual de Jaime Lerner é o perfeito contraponto de tudo quanto acreditamos. Mais: ainda há pouco declarava-se nosso inimigo figadal. Na eleição de Curitiba prometeu esmagar o PSDB porque nosso partido lançaria candidato próprio. Correu o Paraná despejando recursos e pessoal contra os nossos candidatos. Onde pôde, cooptou, na última hora, companheiros de boa densidade eleitoral para voltá-los contra nós. E no 2º turno, Londrina foi invadida por um montante de recursos de toda espécie como jamais se viu, com o único intuito de cumprir sua promessa de aniquilar o PSDB. Como, portanto, acreditar que o sr. Jaime Lerner tenha algum intuito construtivo que o faça desejável pelo PSDB? Na verdade, está em busca de outro ninho provisório para acalentar suas pretensões de poder e riqueza, mantendo um pé no PDT, adonando-se do PSDB e, sendo possível, dobrando, custe o que custar, todos quantos possam fazer-lhe oposição. Quer instaurar no Paraná a ditadura branca, eliminando todo o resquício de oposição nos partidos, como já fez com grande parte da mídia.
- LUIZ CARLOS HAULY é deputado federal (PSDB-PR).
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