Lerner: o regresso ao lar paterno
‘‘Uns dizem que Lerner volta ao lugar de onde nunca deveria ter saído. Outros, que ele regressa ao lugar onde sempre esteve’’.
José Kuiava
O regresso de Lerner ao PFL não é nada triunfante nem ele volta muito feliz para a casa paterna, nem o PFL o acolhe com muito entusiasmo e fraternidade (embora o espetáculo que aconteceu tente provar o contrário). Não era ao PFL que Lerner queria regressar, mas sim ingressar no PSDB, que lhe bateu a porta. Sai do PDT com baixo moral político, já que não tem sido exemplo no cumprimento do princípio ético partidário. Na verdade, não houve regresso. Houve permanência. Lerner sai do partido onde nunca esteve (PDT) e volta ao partido onde sempre permaneceu (PFL, em suas múltiplas versões). Sempre esteve vinculado à direita conservadora.
Pela origem de classe e consequentemente pela sua identidade ideológica, Lerner sempre manteve seus vínculos de classe e seus compromissos políticos com as elites de direita mais conservadoras de Curitiba e do Brasil. Sempre se manteve muito arredio e distante das esquerdas, das forças políticas do interior e do ideário político-programático do PDT, partido que lhe deu abrigo durante mais de 12 anos.
A análise da trajetória política de Lerner demonstra que ele fez a travessia partidária ‘‘pelo alto’’. Hoje, no PFL, ontem, no PDS, no passado na Arena. Portanto, a gênese política de Lerner é a seguinte: o golpe de 64 gerou a Arena, que gerou o PDS, que gerou o PFL, que sempre se manteve no poder no período de regime militar, no processo de transição democrática e no período democrático. Lerner percorreu este caminho. O seu padrinho político é o ex-governador do Paraná, Ney Braga, político forte do regime militar, que brindou Lerner com dois mandatos ‘‘biônicos’’ de prefeito de Curitiba. Quando foi restabelecida a democracia no Brasil pelo processo de transição no final da década de 70 e início dos anos 80, a Arena, partido de sustentação política do regime militar, transformou-se estrategicamente em PDS, mas gerou uma crise no grupo do poder e no regime militar.
Houve uma desagregação de forças do grupo político hegemônico no Paraná, a exemplo do poder central. Esse grupo (aristocracia curitibana) do PDS perdeu a eleição para o grupo dos ‘pés-vermelhos’ do PMDB de Richa, em 1982. Naquela conjuntura política, Lerner havia perdido a vaga para concorrer ao governo do Paraná para seu companheiro Saul Raiz, derrotado pelas forças democráticas. Na sequência, quando Brizola ganhou o primeiro governo no Rio de Janeiro, convidou o então arquiteto Jaime Lerner para elaborar um novo projeto urbanístico daquela cidade.
Resultado: Brizola e Rio ficaram sem projeto e Lerner ganhou o PDT do Paraná (Brizola e o PDT estavam em alta na época). Na condição de líder do partido, Lerner (e o seu grupo mais próximo de Curitiba) sempre se colocou acima do PDT, mas nem sempre respeitando a fidelidade partidária, tanto no cumprimento do programa e do ideário político do PDT como nas orientações da Executiva Nacional. Não estava nos planos e nas práticas políticas do Lerner a ‘‘social democracia’’, muito menos o ‘‘socialismo moreno’’ de Brizola. Exemplos mais elucidativos desse descompromisso de Lerner com o PDT são as eleições de 1989, quando apoiou o candidato Afif Domingues, do PFL, e, em 1994, quando apoiou o candidato Fernando Henrique, do PSDB, em vez de apoiar exclusivamente o candidato próprio do PDT Leonel Brizola.
Do ponto de vista ético, Lerner deveria ter deixado o PDT há mais tempo. Na despedida, deveria também ter agradecido ao Brizola, ao PDT nacional e do Paraná pelo apoio que recebeu nestes anos e deveria ter pedido desculpas pela desconsideração aos companheiros, autênticos pedetistas, humilhados nas campanhas para o governo de Estado de 1994 e governos municipais em 1996.
A análise é para conferir, se possível. Acima de tudo, para rever e repensar a ética na política brasileira.
- JOSÉ KUIAVA é ex-presidente do PDT de Cascavel

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