Lerner, a agricultura e o Iapar
Lerner, a agricultura e o Iapar
Ruy Casão Junior,
Luiz Gonzaga Esteves Vieira
e Paulo Henrique Caramori
Na iminência da perda irrecuperável de um extraordinário patrimônio do Estado do Paraná, cientistas do Iapar - Instituto Agronômico do Paraná -, vêm a público denunciar a deterioração que este importante órgão de pesquisa está sofrendo. A gravidade da situação e a importância deste instituto para a agropecuária paranaense fazem com que nós não tenhamos o direito de optar pelo conformismo ou imobilismo diante deste fato tão grave. É de tal ordem a degradação institucional - do ponto de vista gerencial, financeiro e de administração de seus recursos humanos - que há realmente um sério risco de esta crise ultimar em um colapso.
A crise que ora permeia o Iapar é, na verdade, a exteriorização de um sintoma causado por uma situação iniciada em governos anteriores e tem continuidade no presente governo, devido à sua indecisão na tomada de posições concretas para a solução do problema.
Práticas desastrosas de administração pública, ingerências políticas completamente estranhas ao objetivo-fim da instituição, política de recursos humanos e amarras burocráticas incompatíveis com uma instituição de vanguarda, indicação e manutenção de administradores despreparados para o cargo e incompreensão, no âmbito da Secretaria da Agricultura, do papel fundamental de uma instituição de pesquisa para o desenvolvimento agrícola, podem ser listados como fatores que contribuíram para que o Iapar atingisse o atual nível de deterioração.
O descompromisso governamental em garantir um aparato público de pesquisa que assegure o progresso técnico para a agricultura paranaense teve como marco a transformação da então Fundação Iapar em autarquia, o que ocasionou a cassação de toda e qualquer possibilidade de gerir recursos humanos e de pesquisas. Tal medida foi concretizada a despeito dos fartos exemplos mostrando que os padrões gerenciais da administração direta utilizados no Brasil são incompatíveis com uma atividade que necessita de agilidade para garantir a qualidade de seus produtos e serviços. A partir daquele momento, houve um declínio na capacidade institucional de responder às tradicionais demandas da sociedade e de enfrentar os novos desafios que estão surgindo com as rápidas transformações econômicas, sociais e científicas hoje em curso.
É constrangedor ter que explicar constantemente aos nossos governantes a obviedade da importância de investimento em atividades de pesquisa. Nos dias de hoje, não é mais necessário debruçar-se sobre compêndios sócio-econômicos para entender que a vantagem comparativa de uma nação, em conjunto com a capacitação e educação do seu povo, é altamente relacionada com a atenção devotada às suas organizações de ciência e tecnologia.
A importância dada a este setor pode ser avaliada a partir da experiência de países desenvolvidos, que foram capazes de construir uma agricultura fortemente competitiva e geradora de desenvolvimento social e econômico. Como parte integrante do ambiente científico e tecnológico, o Iapar é uma instituição de pesquisas com competência comprovada nacional e internacionalmente e que, reconhecidamente, tem contribuído para a agricultura paranaense através de inúmeros processos e produtos.
A despeito do esmagamento sofrido durante os últimos governos, graças à base sólida estabelecida em sua fase inicial, o Iapar possui um quadro de pessoal preocupado em conceber novas estratégias científicas e tecnológicas exigidas pela sociedade. Com este potencial, e considerando a sensibilidade e cultura do senhor Jaime Lerner, tínhamos a certeza de não sofrer o mesmo descaso demonstrado por governos anteriores.
Após mais de dois anos do início do governo Lerner, dificuldades políticas, até agora desconhecidas por nós, talvez tenham impedido o governador de realizar seu sonho de um Iapar, centro de excelência de primeiro mundo, alicerce de uma administração de vanguarda que considera a ciência e tecnologia essencias para o Paraná trilhar novos caminhos.
Em vista do precário funcionamento do Iapar nos últimos dois anos, e caso continue a prevalecer a demonstrada falta de empenho e/ou capacidade do governo estadual em encaminhar as questões prioritárias da instituição, deixamos claro à sociedade que a responsabilidade pela destruição desta entidade não nos poderá ser imputada.
Não há como protelar decisões inadiáveis. Tememos que, sem medidas urgentes para sanar os atuais problemas do Iapar, este não consiga retomar os níveis de excelência que um dia serviram como referencial para outras instituições de pesquisa no país.
Se o governo estadual ainda tem como objetivo tornar a agricultura paranaense mais competitiva, promovendo a atualização de um setor do qual o Paraná se orgulhava por gerar conhecimentos científicos e tecnológicos próprios, continuaremos a mostrar o empenho, a criatividade, a competência e o profissionalismo que sempre caracterizaram esta instituição.
Caso contrário, que a responsabilidade seja anexada à biografia dos que detêm o poder de tomar tal decisão. Com a palavra o governador Jaime Lerner.
- RUY CASãO JUNIOR é doutor em Engenharia Mecânica
- LUIZ GONZAGA ESTEVES VIEIRA é doutor em Genética
- PAULO HENRIQUE CARAMORI é doutor em Agrometeorologia
Os signatários representam uma comissão de mais de 70 pesquisadores do Iapar





