O desenvolvimento de um país está diretamente condicionado à sua capacidade - envolvendo governantes, parlamentares, empresários, trabalhadores e toda a sociedade - de assimilar e se adequar às transformações políticas, econômicas e culturais. O conservadorismo teimoso e a omissão diante dos desafios conjunturais são inimigos da evolução. A História mostra que o radicalismo hermético ou a passividade diante das mudanças já custaram a derrocada de civilizações, nações, governos, instituições, empresas e empregos...
Para entender a relação causa-efeito entre a ação ou imobilismo e a sobrevivência ou morte perante o dinamismo da realidade, basta recorrer aos livros, não apenas de História, mas das mais diferentes abordagens, que demonstram ser as posturas reacionárias análogas ao insucesso. Mas o brasileiro não lê e, portanto, não desenvolve consciência crítica sobre essas questões, argumentariam alguns, recorrendo a um estigma que pouca justiça faz a um povo que ainda busca a sua afirmação cultural. Essa questão do livro e dos índices de leitura no Brasil é, por si só, um exemplo muito importante e cristalino do quanto é vital, para qualquer país, saber adequar-se às transformações conjunturais.
O Brasil lamentavelmente, não tem respondido, à altura das necessidades de seu povo e de seus setores produtivos, ao desafio da globalização. Exemplo disso é o recente ‘‘pacote’’ fiscal do governo, ação quase desesperada diante do ‘‘crash’’ global, que poderia ter sido evitada caso já tivéssemos um sistema tributário-fiscal equilibrado, moderno e capaz de conferir imunidade à economia nacional perante as oscilações do fluxo internacional de capitais.
A omissão do Congresso Nacional, que acabou suscitando o ‘‘pacote’’ expõe o livro a um verdadeiro dilema Shakespeariano, que se coloca abruptamente diante dos brasileiros, especialmente os de renda média ou baixa: ‘‘Ler ou Comer, eis a questão’’. Na verdade, as medidas fiscais anunciadas pelo governo pegam o setor editorial no contrapé, pois sinalizam um período de recessão no próximo ano. Justamente agora que a estabilidade da moeda refletia-se favoravelmente nos índices de leitura per capita do brasileiro (de 1995 para 96, a venda de livros passou 2,4 para 2,6 volumes por habitante/ano), a iminência de uma recessão gera sério risco de retrocesso. Obviamente, por mais que queira comprar livros, o brasileiro desempregado, subempregado ou com o salário achatado pela conjuntura irá garantir prioritariamente os produtos e gêneros de primeiríssima necessidade.
Não bastasse o ‘‘pacote’’ fiscal, as editoras também foram atingidas pelo ‘‘embrulho’’ postal, que, majorando de forma absurda (até 122,2%) a tarifa do material de promoção remetido pelos Correios, poderá tornar mais caro o livro, somatória de recessão com aumento de preços terá reflexos duros nos índices de leitura, comprometendo a meta do setor editorial, de que o País chegue ao ano 2000 com índice de três livros por habitante/ano.
A multiplicação de feiras de livros, o engajamento em campanhas do próprio governo de estímulo à leitura, investimentos em qualidade e a revelação de novos autores alinham-se entre as ações desencadeadas com vistas ao cumprimento daquela meta. Os editores brasileiros apostam na seriedade com que vinha sendo conduzido o plano de estabilização econômica, com regras claras e definidas. Esperavam, ansiosos, como todos os demais setores, que a reforma constitucional, apesar do atraso, viesse em tempo de manter estáveis as regras do jogo.
No entanto, como num passe de mágica - ou melhor, de bruxaria -, erros do passado voltaram a ameaçar os que produzem, trabalham e até mesmo os que lutam no sentido de contribuir para a democratização da cultura. Amargas surpresas à parte, só se pede um favor: não digam mais o que o brasileiro não gosta de ler...

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