Nem bem amanhecia o dia desembarquei (28/10) no aeroporto do Galeão e, embora seja sempre bom voltar ao Rio de Janeiro, ato contínuo embarquei de volta a São Paulo (de onde vim), sem sequer ter saído do aeroporto, naquilo que o barulho de disparos ao longe não me pareceu uma recepção de boas-vindas – estava em pleno andamento a ‘operação policial’ mais letal da história do país, que superou em mortes o massacre do Carandiru.

O complexo da Penha é lugar desta carnificina a céu aberto (já são 120 os corpos empilhados), erigida a sombra de um estado ausente que, quando se faz presente, mata moradores comunitários – indiscriminadamente.

O Rio, de alguns anos para cá, vem gritando sua maledicência administrativa em viés de violência, alocando uma necessidade (política) de se responder aos inúmeros desmandos que a ausência/abandono do estado de bem-estar social implementou no entorno das muitas comunidades fluminenses...

Desafortunadamente essa Quimera aflora em períodos pré-eleitorais e, como de costume, empilha corpos negros, pobres e periféricos sobre a disléxica realidade fluminense, onde viver é menos e parecer combater a criminalidade é mais.

E as muitas mortes, perguntaria você, atento leitor? Ah, estas não são senão singelo efeito colateral – diriam os parlapatões do estado liberal.

Noves fora minha nenhuma vocação para tolerar a morte e conviver com a violência, sigo leitor de Dostoievski e, nesta medida, estou observador da vida no aguardo das próximas tragédias tropicais que o existir nos destina: outra cheia do Guaíba, futuras incursões da polícia em comunidades (em Londrina tanto quanto), reunião do Copom, fala dos parlamentares de extrema direita no Congresso – onde se depreendem inolvidáveis negações de história, e se destacam tropas (antivacina, terraplanista, xenofóbica, misógina, machista), entre outras tolices mais.

Li, todavia, em algum sítio, uma comparação entre a ausência de disparo de arma de fogo na operação Carbono 14 (São Paulo) e a enorme letalidade da imbecilidade carioca.

Deveras e sem querer comparar o que não há como ser comparado, observo, entrementes, um ponto de interseção que se anuncia na eleição das logística distintas que as operações desanuviam: Enquanto a polícia paulista atuou polidamente na Faria Lima (talvez o mais importante quadrilátero financeiro latino americano) a repressão carioca se deu no Complexo da Penha, que se divide entre bairro e comunidade e está habitado por muita gente humilde.

A polícia que entra nas comunidades está armada e pronta para o embate, ao passo que a polícia que cumpre mandado em condomínios estrelados aparece de peito aberto e cheia de compreensão.

Qual a diferença? A localização, naquilo que a polícia que maltrata pobre é a mesma polícia que baba ovo para rico.

Se pronuncia aqui uma vívida síndrome de capitão do mato, onde a carne mais barata do mercado segue sendo a carne negra e pobre (como sempre foi no Brasil), para desencanto de minha equação de bem viver, que se acomoda no entre vistas das paisagens temporais de nossa existência, cujo adorno último segue sendo o nenhum apreço pela vida das minorias que as administrações neoliberais vêm praticando por terras brasilis.

Isso tudo sob o céu do Rio de Janeiro, um dos lugares mais belos da terra, onde a maravilha se impõe e a tragédia se anuncia em malabares neoliberais, cujo escopo é parecer uma coisa quando, em verdade, significa outra coisa...

Mas do que você fala, João? Falo dos inúmeros imbecis que celebram 120 mortes (até então) como se significassem um qualquer benefício social. Falo do governador fluminense Cláudio Castro vir a público dizer que sua ‘operação policial foi um sucesso’.

Como pode ser um sucesso a morte de 120 pessoas? Como? Ah, mas eram todos traficantes – disse o patriota que veste roupa tática e se alimenta de fake news enquanto agride sua companheira.

Não, não eram "todos traficantes". Isso é uma tolice e acreditar em tolices é característica dos que são rasos pela vida e profundos nos preconceitos.

Noves fora, ainda que fossem "todos traficantes" (e não eram), pergunto: pode o estado matar sumariamente? Evidente que não, suposto que segue sem poder matar ainda após o devido processo, naquilo que proibição da pena de morte é cláusula pétrea Constitucional.

Não obstante a tragédia jamais vir desacompanhada, por aqui ela teima em se repetir, sempre nos mesmos lugares e sob as mesmas premissas – ausência do estado, notadamente onde políticas públicas não são senão matéria para fascista criticar e gestar suas mentiras aleivosas.

Não é mais possível tolerar a banalização da morte, tampouco personificar a morte na precificação do desvalor da vida de minorias, como se desimportantes fossem, suposto que viver será sempre mais e vidas periféricas importam – ainda que se encontrem no Rio de Janeiro, onde prolifera há décadas a lenda urbana de que se combate criminalidade matando gente da periferia.

O que passa com a humanidade não é senão um reflexo desumano da intentona fascista que a crise do capital convocou na personificação visceral de suas hordas de ignorantes – segue o berrante, oh bovino de poucas ideias.

Tristes trópicos. Saudade Pai!

João Gomes Filho, advogado

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