LEITURA INFANTO-JUVENIL - Criança deve ter liberdade para escolher seus livros
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domingo, 20 de dezembro de 2009
Érika Gonçalves<br>Reportagem Local 
O dilema de muitos pais com filhos em idade escolar é fazer as crianças se interessarem pela leitura. A competição é acirrada. Elas preferem a televisão, o computador ou o videogame e a hora de fazer os trabalhos escolares é um tormento. Os pais com crianças que ainda não têm o hábito se perguntam qual a melhor forma de incentivar os pequenos a ter gosto pela leitura.
A FOLHA conversou com uma especialista no assunto. Prestes a completar 91 anos, Tatiana Belinky é um fenômeno. Ainda escreve à mão os livros infantis que já somam mais de cem e que lhe conferiram vários prêmios, inclusive o mais cobiçado deles, o Jabuti, em 1989. Russa, veio para o Brasil ainda criança, mas já apaixonada por literatura. Tornou-se admiradora de Monteiro Lobato e mais tarde foi responsável, junto com o marido, pela adaptação de suas obras para a televisão.
Tatiana foi colaboradora de vários jornais da capital paulista e sua estreia na literatura foi meio ao acaso. ''Ligaram de uma editora e me pediram para mandar alguma história infantil. Eu tinha cinco escritas e mandei todas. Eles gostaram de quatro e foi assim que comecei, com quatro livros de uma vez''.
Como foi o seu primeiro contato com as obras do Monteiro Lobato?
Foi a primeira coisa que me aconteceu quando eu cheguei ao Brasil, quando eu tinha 10 anos. O primeiro texto em português que caiu na minha mão, por estranho que pareça, eu nem falava português ainda, foi um conto do Monteiro Lobato, o Jeca Tatuzinho. Era um folheto de propaganda do Laboratório Fontoura. Eu não sabia o quanto isso ia ficar importante na minha vida. Depois eu li toda a obra dele, li e reli. Bem mais tarde o conheci pessoalmente.
E como foi esse contato com ele?
Foi muito estranho porque nós não o procurávamos, meu marido Júlio e eu. Éramos muito admiradores dele, mas nem pensávamos em procurá-lo. Uma noite ele ligou para a minha casa, assim, de sopetão. Tocou o telefone, eu atendi e uma voz falou: ''Aí é a casa do Júlio Gouveia?'' e eu disse: ''É, quem quer falar com ele?''. A voz disse: ''Aqui é Monteiro Lobato.'' E eu respondi: ''Aqui é o Rei George.''
Achei que era trote. Por que ele ia ligar para a gente? Ele nos procurou por causa de um artigo do meu marido que ele leu em uma revista cultural, gostou e quis conhecer o Júlio. E perguntou se podia ir em casa naquela noite. E foi. Depois disso tivemos ótimas conversas, fomos na casa dele também.
E como foi adaptar o ''Sítio do Pica Pau Amarelo'' para a televisão?
Nós fazíamos teatro para crianças, Júlio e eu, para a prefeitura de São Paulo. Fazia uns dois anos e a televisão era recém-inaugurada, não tinha um programa especial para crianças. Alguém da TV Tupi nos assistiu no Teatro Municipal, gostou e o Cassiano Gabus Mendes nos convidou. Pediu para fazermos no estúdio o que fazíamos no palco e a TV se encarregaria de transmitir.
Logo em seguida telefonaram muito para a emissora, porque acharam um programa interessante, diferente. Dois dias depois a emissora ligou para o Júlio e convidou-nos para fazer um programa especial para crianças. Era 1951, mais ou menos. Começamos com um programa chamado Fábulas Animadas, eram histórias pequenas, com poucos atores. Dois meses depois a emissora nos convidou para fazer um programa maior. Pediram um programa brasileiro, e pensamos em Monteiro Lobato. Ele já tinha morrido, mas a viúva, dona Purezinha, nos deu autorização para adaptar.
Essa outra versão de 1977 vocês não tiveram participação?
Isso já não era o que a gente fazia. Não fizeram o Monteiro Lobato que eu conheci. Sou suspeita de falar sobre isso.
Aquela frase no final das histórias - ''e quem quiser que conte outra'' - foram vocês que inventaram, não é?
É minha, a roteirista era eu, era quem escrevia tudo. Foi um trabalho grande e tão prazeroso, nem chamo de trabalho. Foi um hobby, algo muito agradável.
A criança de hoje é diferente da criança de antigamente?
Ela é mais solicitada, mais agitada, porque é bombardeada com muita coisa ao mesmo tempo. A criança, para mim, não mudou. O que mudou foi o entorno. Todas as crianças sempre foram muito inteligentes e muito espertas. Elas eram muito atrapalhadas pelos adultos, muito controladas, muito proibidas de uma porção de coisas, muito enganadas.
Agora há outros problemas, mas criança é criança. São muito espertas, com muito senso de humor, muita capacidade de observação, de aprender e de apreender o mundo. Há muitos anos uma professora me perguntou porque criança não gostava de estudar. E eu respondi que criança não quer estudar, quer aprender e apreender, assimilar, ler o mundo em volta. Bem faz quem não as atrapalha, em geral professores e pais.
E como estimular a leitura, com as crianças em um mundo tão cheio de outros atrativos?
Criança é curiosa, se você deixar para ela uma caixinha fechada ela vai abrir, se deixar um livro ela vai abrir também, vai querer mexer, vai querer saber o que é.
E na hora de escolher um livro infantil? Do que as crianças gostam?
A criança tem que escolher. Livro infantil bom é aquele do qual a criança gosta. Às vezes ela gosta do que nem é tão interessante para ela, mas tem que experimentar e deixar mexer. Tem que levar a criança para a livraria para ela poder pegar, abrir e escolher. Para quem vem com a conversa de que o livro infantil é caro, digo que é caro para quem não tem o que comer em casa. Quem pode comprar um sanduíche nas lanchonetes caras, pode comprar um livro de R$ 15 ou R$ 20. Ou pode pegar de graça nas bibliotecas públicas.
E tem outra coisa, obrigar a ler também não pode, nem mandar. Muita gente me diz que manda o filho ler e ele não quer. Eu digo que, para começo de conversa, não mande. Deixe escolher, ler o que quiser, não existe impróprio, proibido. Se quiser ler, leia. Se quiser parar no meio, pare, procure outro. Há muita filosofia errada em torno disso e não é tão complicado assim. O importante é ter livros em casa, a criança ver os pais lendo.


