Leitura, essa desconhecida
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domingo, 24 de janeiro de 2016
Luís Fernando Wiltemburg<br>Reportagem Local 
Natural de Congonhinhas, o doutor em Filosofia e Educação Cesar Nunes saiu do Norte Pioneiro para a livre-docência em uma das mais conceituadas instituições de ensino superior do País, a Universidade de Campinas (Unicamp).
Em entrevista à FOLHA, o professor da Faculdade de Educação faz um resgate da cultura brasileira, edificada à distância do livro e da leitura, e as consequências desse afastamento para a sociedade contemporânea hiperconectada, mas desprovida de ferramentas para transformar as informações em conhecimento. Também põe à luz a necessidade de revisão do papel das escolas e dos pais na formação do hábito de leitura das crianças. Ele estaria ontem em Londrina, para fazer a palestra de abertura do Encontro Pedagógico do Sistema Maxi de Ensino.
O brasileiro é um povo que não gosta de ler. Por que existe esse distanciamento em relação aos livros?
Em primeiro lugar, é preciso considerar que a cultura brasileira não nasceu sob o símbolo da leitura e do livro. O livro e a leitura na sociedade moderna, do século 16 para cá, eram um veículo de transformação protagonizado pelos racionalistas, pelos iluministas, pelos modernos. Até Lutero, que era um grande reformador religioso, queria que todos aprendessem a ler para ler a Bíblia. Era a Reforma Protestante. A Igreja Católica, junto com Portugal e Espanha, fazia um outro modelo de cristianização. Para a Igreja Católica, a mediação do livro era só do padre e as pessoas tinham de ouvir, acompanhar a procissão e aplaudir. Então, a nossa cultura não é centrada na leitura, na autonomia dos sujeitos leitores. É sempre mediada por um padre, ou pelo juiz, ou pelo advogado, e se cria a ideia de que o livro não pode ser tocado. Somos uma sociedade que não se constituiu sobre os imperativos culturais para a leitura e para a escrita, mas para as celebrações coletivas: procissões, parada militar, sermão e outras coisas. O segundo conceito é que nós tivemos um relativo avanço moderno de 1930 para cá, quando a urbanização e a industrialização exigiram uma nova escola e uma nova sociedade. O Estado brasileiro conduziu nossa modernização e nunca teve um programa de massificação de leitura. Sempre houve pouquíssimas vagas na universidade, raras e poucas vagas no ensino médio. A escola brasileira pretendia que os alunos chegassem à quarta série para aprender a ler e escrever, tirar título de eleitor para votar na sociedade coronelista de cabresto e se possível, ter uma carteira de trabalho. Nós somos, hoje, a nação que menos lê em razão per capita. O índice de leitura do País é de 1,86 livro por pessoa, segundo a Câmara Brasileira do Livro. Em Portugal, é 10,3; na Espanha, 15; na França, 22; em Cuba, chega a 26 livros por pessoa.
A sociedade tecnológica volta cada vez mais suas atenções para os recursos multimídia, que complementam o texto com imagem e som. Como atrair a atenção dessas pessoas para os livros?
Nós caímos, no final dos anos 1980 para cá, numa sociedade tecnológica. Nós já não tínhamos cultura de leitura, agora, menos ainda. As tecnologias não são a causa da nossa ausência da prática da leitura. Só reforçam as matrizes culturais anteriores. Então, as pessoas sabem ler e escrever, mas não sabem ortografia, gramática, metáfora e a leitura de uma obra de escrita literária é para formar fantasia, para imaginar e sonhar, o que é necessário na primeira década de vida, para que seja uma pessoa criativa. As escolas não ajudam a gostar de ler, as famílias não têm essa tradição pelas razões históricas e, aí, existe uma quase capitulação diante das tecnologias digitais. As pessoas escrevem muito, mas é uma escrita indicativa: "Você vai comigo?", "Me dá um beijo?", "Oi, galera, caraca". São uma leitura e uma escrita despossuídas de metaforização, de pensamento hipotético, originalidade, beleza. São somente uma leitura e uma escrita da indústria cultural: consumistas, hedonistas e descritivas.
Mas esse fenômeno é uma característica brasileira?
Isso é um fenômeno mundial, em todos os países você sente isso, mas em países que não tiveram matrizes culturais de resistência, como a nossa não tem quase que nenhuma, há uma capitulação. A França teve elementos históricos muito diferentes do nosso, a colonização francesa medieval era como a nossa, mas a moderna socializou o livro. Lá, num metrô, de dez pessoas, sete estão lendo e só três no celular. Então, as chamadas culturas anteriores produziram uma sensibilização para o livro e a leitura. Evidente que hoje as pessoas até leem mais, mas leem placas, coisas, letra de música, mas essa leitura não é aquela que pretendemos para um objetivo humanizador, de fazer um menino e uma menina comungarem com os elementos culturais de um país. Fiz uma visita ao Nordeste e o menino que atuou como nosso guia não sabia o nome de uma rua. Mas sabia assim: "Aqui foi gravada a novela 'Tieta'", "Aqui tal personagem perdeu a virgindade em 'Tieta'", "Ali é onde a Record está fazendo o Mar Vermelho (da novela 'Os Dez Mandamentos')". As referências desse menino de 18 anos eram novela, funk, futebol e ele não tinha uma informação para falar sobre "Tieta do Agreste", de onde veio a obra. Ele tinha da novela, mas não do Jorge Amado.
Por que isso ocorre, se temos tantos livros nas escolas públicas?
Nós temos produzido acesso ao livro. O Programa Nacional de Acesso ao Livro Didático (PNLD) é um dos maiores do mundo. Há livros nas bibliotecas escolares, não é mais como há 40 anos, quando não tinha livro para ler. Existem municípios que compram livros, têm biblioteca, o número de bibliotecas no Brasil cresceu vertiginosamente nos últimos 30 anos, mas o gosto pela leitura não aumentou. A gente não consegue criar imperativos éticos e estéticos através da escola para a leitura e escrita. E a nossa lamentável escola pública e a escola particular estão colonizadas por duas matrizes. A escola pública, baseada muito mais em práticas assistencialistas: merenda, cuidar do dente, do piolho, do esporte. E, na escola particular, é passar no vestibular. Ensinar para passar numa prova não é educar, não é preparar para ser culto, erudito, para entender quem foi Michelangelo, entender, por exemplo, que o protagonista Candinho da novela da Globo ("Êta mundo bom!") é uma metáfora muito mal feita pelo Walcyr Carrasco de um romance de Voltaire chamado "Cândido".
Quando criança, copiamos exemplos. Sendo assim, como fazemos o adulto incentivar a leitura na criança? Como criamos o hábito de leitura nos mais velhos?
Eu tive a honra de ser aluno do Paulo Freire por quatro anos na Unicamp. Ao ouvir alguém dizer que devemos resgatar a leitura no Brasil, ele respondia: "Resgatar o quê? Só resgata o que já teve". Ninguém resgata a tradição de leitura no Brasil porque ela não existiu. Havia o Index Librorum Prohibitorum da Igreja Católica, ninguém podia ler. Os militares acham os livros subversivos até hoje. E os preços das boas coleções, das boas edições, são proibitivos. O primeiro livro publicado no Brasil é de 1818, dez anos depois da vinda da família real e 300 anos depois de Gutemberg. E Paulo Freire concluía o pensamento assim: "Só uma geração de professores e pais leitores produzirá uma geração de alunos e crianças leitores". Então, temos de produzir políticas públicas culturais pedagógicas de acesso à leitura, de valorização da leitura, feiras, festivais, programas no metrô, no ônibus, cestas de livro. É muito difícil criança gostar de ler se o pai ou a mãe disser que não gosta. Temos primeiro que formar os pais para depois formar as crianças.
Você cita os valores proibitivos dos livros e a dificuldade que as pessoas têm de compreender uma obra mais complexa pela falta do hábito de leitura. Mas há best-sellers, de histórias ou de autoajuda, que são muito vendidos, mas também criticados pela qualidade. Esses livros podem ser uma porta de entrada para o mundo da leitura ou a pessoa sempre procurará mais do mesmo que a agradou?
O poder da indústria cultural de produzir livros de autoajuda e tudo isso que foi citado é gigantesco e a leitura e o livro são alguns dos ícones dessa indústria cultural. Tem livros para pai, para mãe, para namorada, para dar de presente. E, de vez em quando, explode um. Só que, depois, logo é criticado. "Crepúsculo", por exemplo, sofreu uma pesada crítica do Domenico DeMarchi, do Zygmunt Bauman, dizendo que, na verdade, o livro retira a responsabilidade amorosa da vida do homem e joga para um lobisomem. Então, o amor, o sentimento não está na humanidade. Assim como foi "ET", em que vemos num extraterrestre tudo aquilo que queremos ver numa criança: afetividade, carinho. Isso é a chamada alienação cultural. Mas acho que a gente precisa aproveitar esse estímulo dessa indústria cultural, embora corramos o risco de a pessoa viciar nessa baixa literatura, e a escola deveria fazer o "upgrade" pedagógico, dar disposição para a leitura que a indústria cultural estabelece, fazer devagarinho uma leitura seletiva, profunda, que levasse a pessoa a compreender outros status de horizonte da leitura e da vida.


