LEITURA - Conhecimento nas bancas
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Paula Costa Bonini<br>Reportagem Local 
O mercado editorial brasileiro é caracterizado pela grande variedade e constante expansão. Uma pesquisa encomendada pela Câmara Brasileira de Livros (CBL) e Sindicato Nacional dos Editores e Livreiros (SNEL) mostra que, somente em 2007, 51.129 novos títulos foram lançados no País. Mas a expansão também está presente nas bancas de revistas. Publicações especializadas em história, filosofia, sociologia, artes e história - temas antes restritos ao meio acadêmico - hoje são facilmente encontradas. Os principais atrativos são a linguagem acessível e o conteúdo sintetizado.
Dados fornecidos pelo Instituto Verificador de Circulação (IVC) mostram que duas das principais revistas de história do País totalizaram 82 mil exemplares em 2005. A circulação cresceu nos últimos anos. As pesquisas mais recentes, agora com três títulos diferentes, indicam que 83.479 exemplares circularam no País apenas no primeiro semestre de 2009.
Para o doutor em história social e professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL) André Luiz Joanilho, o fenômeno é positivo. ''Não concordo com as críticas que alguns historiadores fazem em relação à vulgarização. Eu acho que ela é necessária, pois alarga a base de conhecimento das pessoas.'' Nesta entrevista, ele ressalta a importância da difusão do conhecimento e aponta que há espaço para um crescimento ainda maior.
Temas voltados ao meio acadêmico, como história e filosofia, começaram a ser amplamente divulgados por meio de publicações especializadas disponíveis nas bancas e livrarias. O que explica esse fenômeno?
O mercado editorial acordou para uma necessidade das pessoas. Elas gostam de escutar relatos, de filmes e seriados históricos. Especificamente em história, a disciplina ficava muito restrita aos professores e pesquisadores. A linguagem deles é árida e não chega ao grande público. É uma linguagem difícil, que não facilita a leitura de pessoas que não estão dentro da área.
Uma parcela de profissionais da academia começou a produzir material para o grande público. As pessoas querem conhecer e a vulgarização, sem ser pejorativo no termo, preencheu a curiosidade de muita gente.
Há demanda suficiente?
Tem muita demanda e pode crescer muito mais. Por exemplo, o livro 1808 (do jornalista Laurentino Gomes) está pela centésima semana entre as obras mais vendidas. É um livro que na academia os historiadores torceriam o nariz e chamariam de vulgarização de conhecimento. Mas na realidade ele leva ao público determinadas questões de forma mais simples. Pessoas de qualquer área podem ler.
As adaptações podem vir a substituir as obras originais?
Elas não tem como substituir a produção acadêmica. Mas o que é produzido na universidade são textos muito chatos. As pessoas não têm acesso a essas produções e se chegam a ler acabam abandonando a leitura. Essa vulgarização é interessante, pois os autores tendem a usar pesquisas produzidas na universidade para a vulgarização. Percebo que hoje estamos em um outro patamar da história. De uns anos para cá ela se tornou mais interessante. As obras de vulgarização completam isso. As pessoas não querem saber quais são as curvas econômicas de preço do século XVI e sim como era dentro do navio, o que eles faziam. Querem saber como as pessoas namoravam e casavam nessa época.
O conteúdo torna-se mais fraco uma vez que as novas publicações são sintetizadas e a linguagem modificada?
Depende da qualidade do escritor. É preciso levar isso em conta. Você tem bons e maus escritores. Muita gente da academia não escreve bem para o público em geral. É igual sala de aula. Existem professores que sabem muito e não conseguem explicar e outros que não conhecem tanto, mas sabem explicar. Depende do profissional e do objetivo dele.
O discurso científico não é popular e sim elitista. É uma linguagem muito fechada e as pessoas não têm entradas. A partir do momento que alguém deixa a linguagem mais acessível as pessoas querem saber.
Uma razão para o aumento dessas publicações pode ser o fato de agora os vestibulares exigirem sociologia, filosofia e artes?
Não é a inclusão no vestibular ou a mudança do material didático que explica o aumento das publicações, mas sim a disposiçaõ das pessoas em conhecer algumas coisas às quais elas não tinham acesso. Existe a curiosidade. Séries transmitidas pela TV a cabo como Roma fazem sucesso. Hoje existe uma abertura maior. O que aconteceu foi que o mercado editorial se despertou para isso. As pessoas não vão buscar temas tão específicos por causa do vestibular. Você não tem a vulgarização da matemática, por exemplo.


