LEIS EM CONFLITO - Novatos devem guiar nas estradas?
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quarta-feira, 07 de janeiro de 2009
Érika Gonçalves<br>Reportagem Local 
Dois projetos de lei completamente opostos vêm mexendo com a opinião pública. Um deles, federal, determina que os novos motoristas não trafeguem em rodovias enquanto estiverem com a permissão para dirigir, que só é trocada pela carteira de habilitação depois de um ano.
Já o projeto de lei paranaense, aprovado no final de 2008 e encaminhado para o Executivo, prevê que os candidatos a motorista façam aulas tanto nas vias urbanas como nas estradas. Tanto um quanto o outro provocam muita discussão e argumentos não faltam.
Julieta Arsênio é psicóloga e durante mais de 20 anos foi responsável por aplicar testes psicotécnicos nos candidatos à carteira de habilitação. Em entrevista à FOLHA, ela pondera os pontos positivos e negativos dos dois projetos.
Qual sua opinião sobre o projeto de lei que proibe as pessoas de dirigirem na estrada no primeiro ano de habilitação?
Considero que é mais um projeto enganoso. Onde é que está o problema dos acidentes ou do trânsito? Está no condutor. Ele deve ter o conhecimento teórico e prático para estar nas ruas. É inconcebível você imaginar que um pretenso candidato a motorista aprenda a dirigir só dentro da cidade.
Então a senhora é favorável à lei estadual que prevê que os futuros motoristas tenham aulas nas estradas durante a autoescola...
O motorista o é na cidade, na estrada, onde estiver. Não pode ser especificamente de um lugar, porque não se tem controle para isso.
Algumas pessoas são contra porque dizem que seria perigoso um carro de autoescola, que anda em velocidade inferior, trafegando nas estradas...
O projeto de lei também fala desse ''risco'' em estar levando um motorista despreparado para a estrada. Está errado, não se leva pretenso candidato a motorista despreparado para a estrada, leva preparado.
O correto seria levar um motorista para ter aulas na cidade e depois passar para a estrada?
As pessoas completam 18 anos e se sentem no direito de ter uma carteira e ninguém deve proibí-lo, desde que seja realmente preparado. Quantos pretensos candidatos a motorista chegam lá? Os psicólogos não deveriam estar no Detran, deveriam estar nos centros de formação de condutores, porque cada aprendizagem nova muda alguma coisa em nós, talvez até o próprio amadurecimento. E o psicólogo tem que estar lá para prepará-lo. O fato do Paraná reconsiderar isso e dizer que só vai conceder a carteira provisória e definitiva àqueles que passarem pelo trânsito urbano e o trânsito rodoviário já devia ter sido feito.
Muitas pessoas reclamam do número de reprovações. A senhora acha que os centros de formação estão mais rigorosos ou os motoristas estão menos preparados?
Não estão parecendo mais preparados, pelos dados estatísticos que vemos nos meios de comunicação. Continua morrendo essa faixa de jovens de 18 a 33 anos e isso para mim é um jovem que está num momento de autoafirmação e de repente não está sendo preparado em si mesmo, para também desempenhar o papel de motorista. Considero que há um rigor, ótimo, mas é preciso que esse rigor realmente seja eficaz. Acho que o candidato não deveria nem ser levado para fazer o exame se não está preparado. Porque ele fez tantos números de aula ele já pode ir? É jogar no escuro. Imagine as pessoas que não passaram na primeira, não passaram na segunda, o fato de não passar na terceira traz para ele complicações sérias. Rigor deve existir sempre, mas um rigor honesto, eficaz.
Pessoas que são inseguras estariam preparadas para fazer as aulas na estrada?
Se tivesse uma psicóloga lá, teria a ficha inteira. Não estando preparada, a psicóloga estaria ali para prepará-la. Em mais de 20 anos trabalhando no psicotécnico, meu trabalho era só aplicar testes. Sempre criticava aquilo. Quando o candidato apresentava alguma situação circunstancial, como um problema no trabalho, perguntava se a pessoa não preferia voltar outro dia. Temos hoje, por exemplo, um índice grande de pessoas que têm sintomas depressivos, que são ansiosos. O candidato vem e não conta que toma remédio. Se ele conta, é louvável isso, porque remédio foi feito para tomar e eu tenho que entender isso. Mas muitos escondem por medo de serem reprovados.


