Desde meus tempos de colegial acompanho o parto de leis, decretos e emendas birutas. Na ebulição de 1968 tive que correr, certa vez, dos militares, igual criminoso, por ser inocente estudante em Belo Horizonte. Fui ajudar uma velhinha nas escadarias da igreja, e os milicos entenderam ser eu (com 17 anos) um perigoso subversivo, contrariando a lei revolucionária de então. Nunca gostei da frase ‘‘Lei é lei, e não se discute, aplica-se’’. Qual é, gente insensata?
Lei é para se discutir e... muito! Tudo aquilo que vem da mente humana, certamente tem imperfeições desastrosas. Se todos os brasileiros lessem nossas leis, grande parte delas deixaria de existir, pelas bobagens, inutilidade, parcialidade e tirania. A sorte de nossos legisladores é que o povo não se incomoda e quer distanciamento.
A prisão do brasileiro Nicolau dos Santos Neto, cicatrizado pelo apelido de Lalau, que muitos ainda teimam em chamar de juiz, deu motivo para estas linhas. Partindo da afirmação da mídia, de que ele roubou do País, o dinheiro público, ou seja, roubou de todos os brasileiros, sua condição de celerado configura-se terrível, fulminante, e dantesca.
Roubar de todo o País é a suprema falta de pudor cívico/moral do cidadão. É um crime que deve ser punido pela perda de todos os bens, com a obrigação de trabalhar, gratuitamente, para a comunidade durante o resto da vida, sem nenhuma regalia, para exemplo e intimidação dos envolvidos e seguidores.
Agora, o que causa espanto é a lei conceder privilégio de cela especial, com comida diferenciada, pelo fato do réprobo possuir diploma de curso superior e outras coiss. É aqui que a lei passa a faca na garganta e na consciência dos mais humildes e honestos. Ora, quem fez esta lei deve tê-lo feito por motivação subterrânea, tipo: ‘‘Se me pegam amanhã, pelo menos terei prisão especial’’.
Se o cidadão já tem o privilégio de ter curso superior, bom emprego e boa reputação, certamente possui plena percepção da gravidade do que seja roubar, do que seja fazer coisas erradas, do que seja abusar e lesar. É uma situação muito diferente da do ladrão de dentaduras, faminto, analfabeto e pisoteado pelas injustiças sociais.
Mais grave ainda é a profissão do indigitado aqui. Estando no final de linha, com toda uma família aderente, o cidadão ainda optar pelo lado errado da vida, renegando todos os principíos de honestidade, compromisso com a Nação e com os trabalhadores suados, é o pináculo da canalhice exacerbada. A Lei de Deus nos ensina que ‘‘a quem muito foi dado, muito será exigido’’.
Traduzindo: as celas especiais deveriam ser reservadas para os mais pobres, sem instrução, ignorantes, sem oportunidades, excluídos das melhores escolas e melhores empregos. Um crime de cabeça diplomada dói e sangra muito mais do que o dos pães roubados na esquina.
A lei nacional precisa, também, colocar as algemas na esposa e filhos maiores, por conivência e proteção ao ladrão megalomaníaco. Se não me engano, uma mulher foi enforcada nos Estados Unidos só por dar cama e comida ao assassino do presidente Lincoln.
Se for comprovada a culpa do Nicolau e de outros tubarões no caso TRT-SP, a Nação brasileira pode ter a grande oportunidade de mostrar seriedade, decência e vergonha, deixando-os tão iguais e nivelados no monturo de seus desatinos.
- RENZO SANSONI é médico em Uberlândia

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