Nem o mais otimista dos brasileiros acredita que, passada a Copa do Mundo de Futebol, o País retome o ritmo e as atividades normais. Sem dúvida, comércio, indústria, serviços, agricultura, enfim tudo aquilo que se pode chamar genericamente de atividade privada, estará em plena ação, alguns tentando recuperar eventuais perdas dos horários parados por causa dos jogos, enquanto todos estarão lutando pela vida. Mas o setor político, infelizmente, vai continuar ausente. Afinal, julho, além de ser o mês das férias escolares de inverno, é também parte do recesso parlamentar. Com ou sem Copa, os membros dos legislativos se outorgam férias.
Como as eleições estão às portas, também não há qualquer esperança de que a atividade político-parlamentar possa ser retomada em agosto ou setembro. Menos ainda até o final da primeira quinzena de outubro, porque após as eleições há as apurações e a necessidade de toda a acomodação delas decorrentes, além, claro, do descanso que os parlamentares vão querer ter depois de tanta luta para conquistar o voto do eleitor. Se não houver segundo turno, então é provável que o Congresso tente fazer alguma coisa no curto período que sobra, até o fim de novembro. Depois, como se sabe, há novas férias para os parlamentares.
Com tudo isto, já se anuncia que a segunda etapa das reformas constitucionais deve ficar para o próximo ano, certamente como possível primeira ação do segundo governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Caso a reeleição de FHC não ocorra, as coisas ainda tendem a ficar um pouco mais complicadas porque embora o projeto de estabilidade econômica do governo tenha como base as reformas, uma eventual mudança no comando do Executivo federal poderá levar à necessidade de outro posicionamento em relação a toda a política econômica. E este é, sem dúvida, mais um dos efeitos negativos desta aparente falta de disposição dos membros do Legislativo em cumprir suas obrigações.
A verdade é que, nesta altura do calendário, todas as reformas estruturais que estavam contidas no projeto de estabilização lançado antes das eleições que consagraram o sr. Fernando Henrique Cardoso já deveriam estar concluídas. E não há dúvidas sobre o fato de que havia tempo suficiente para isto: afinal, o Plano Real já fez quatro anos. Se o Congresso houvesse se debruçado sobre as reformas desde que tomou posse, se tivesse havido também maior disposição e vontade política do Executivo, tudo já estaria resolvido e até a discussão política eleitoral, agora, seria diferente.
O fato de se ter perdido mais quatro anos, ainda mais quando se sabe que o Brasil reclama ação positiva para recuperar o tempo e chegar ao novo século em condições de corresponder a seu potencial, não pode ser descartado como uma consequência natural do espírito brasileiro. O que se viu foi apenas uma repetição da falta de espírito público dos que lutaram para conquistar um mandato popular e não fizeram o suficiente para corresponder à confiança do eleitorado. Não é de hoje que se discute esta inapetência dos legisladores em assumir o trabalho. Dizer que denunciar isto é prejudicar a imagem de um Poder fundamental na República é tentar obscurecer a questão. Quem denigre a própria imagem são precisamente os legisladores, que insistem em não assumir seu papel e realizar seu trabalho. E seria muito útil que o eleitorado ficasse muito atento a isto, até para, nas eleições de outubro, tentar mudar um pouco esta realidade.

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