Legislando em causa própria
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 24 de dezembro de 2002
Nelson Araújo de Oliveira 
Homens que fazem leis, que ajudam a governar a nação, os estados e os municípios deveriam possuir o dom divino da sabedoria e serem capazes de usá-la em benefício de seu país. Quaisquer detentores do poder deveriam dedicar-se com amor e carinho a seu povo; deles deveriam emanar exemplos de justiça e de honestidade. Só os íntegros e competentes deveriam legislar ou administrar os bens públicos e, como pilares de sustentação da sociedade, serviriam de modelo da moralidade e do bom-senso. E, por causa disso, seriam bem remunerados (uns 25 salários mínimos), adicionadas sobre isso, às mordomias de praxe e, ainda, receberiam honras e admiração de seu povo.
Mas, quando esperávamos essa lealdade e dedicação dos nossos congressistas, eles, mais uma vez, nos decepcionaram. Agora, para vergonha da nação, aprovam em alguns segundos um aumento de 50% em seus salários. Este reajuste, só para os políticos, é um escândalo, é uma vergonha. Legislar em causa própria e auferirem lucros extorsivos, no momento em que a economia da nação respira artificialmente na UTI, é, no mínimo, um crime de lesa-pátria. Assim, não são servidores, mas usurpadores. Se alguns desses legisladores passarem por nossa rua, com certeza, vamos apedrejá-los. Evidentemente, que não se trata de pedras literais, pois não somos afeitos a isto. Mas, arremessaremos contra eles, palavras de ordens, de patriotismo e de honradez.
Esse aumento vai cair em forma de cascata sobre as assembléias legislativas e as câmaras de vereadores de todo o país. Já podemos imaginar o tamanho do rombo na frágil economia brasileira.
Esses legisladores inescrupulosos, que legislam em causa própria, levam para suas mesas já fartas o leite e o mel. Para o povo, a dura carga tributária. Mesmo que eles possuíssem dois ou três cursos superiores, especialização, mestrados e doutorados; ainda que gastassem parte de seus vencimentos em pesquisas cientificas para o bem do povo, não se justificaria esse aumento só para eles, num momento de transição quando existem, na nação brasileira, 50 milhões de famintos. Isso descaracteriza, para o novo governo, lema de ''fome zero''.
Na verdade, os grandes problemas dos legisladores do nosso país não estão apenas relacionados ao grau de instrução, paira sobretudo, com exceções, na despudorada falta de vergonha.
NELSON ARAÚJO DE OLIVEIRA é professor aposentado em Londrina


