Legado de Lutero - Tarcísio Vanderlinde
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 04 de novembro de 1998
Tarcísio Vanderlinde 
Foi em 31 de outubro de 1517 que Lutero deu a conhecer suas 95 teses, uma espécie de síntese de suas reflexões e descobertas teológicas. Foi na véspera da Festa de Todos os Santos, e dado o impacto desta divulgação, tal data acabou consolidando-se como a do começo da Reforma protestante.
O historiador Justo L. Gonzalez informa que grande número de exemplares deste documento foram impressos em latim e alemão, sendo distribuídos por toda a Alemanha. O imperador Maximiliano se encolerizou diante das atitudes e dos ensinos daquele monge impertinente, e pediu ao papa Leão X que interviesse.
Na sequência, Lutero publicou uma explicação de suas teses, na qual, além de esclarecer o que tinha escrito, aguçava seu ataque contra a venda de indulgências por parte da Igreja Católica e contra a teologia que servia para apoiá-la.
Passados quase 500 anos deste acontecimento, numa época em que a ousadia de Lutero talvez já não provoque as mesmas paixões, é preciso admitir que poucos personagens na história do cristianismo têm sido calorosamente tão discutidos como este monge agostiniano. São poucos os que hoje duvidam da sinceridade de Lutero e mesmo seus opositores concordam que seu protesto foi mais do justificável e avaliam adequadamente sua contribuição ao cristianismo.
A grande descoberta de Lutero decorreu a partir das conferências que ele ministrava e das reflexões que desenvolveu sobre a Carta de Paulo aos Romanos. Foi ali, no capítulo primeiro, que ele descobriu que o justo viverá por fé. Esta descoberta se tornou uma espécie de paradigma da Reforma, e questionava profundamente todos os sistemas de penitências e, consequentemente, a teologia e as doutrinas vigentes.
As convicções de Lutero o levaram a ter sérios problemas com Roma e com o próprio Império Alemão. Ao ser forçado a retratar-se em Worms, ele disse: Não posso nem quero retratar-me de coisa alguma, pois ir contra a consciência não é justo nem seguro. Deus me ajude. Amém.
Lutero não foi um homem perfeito, como também não o foram muitas personagens bíblicas, como Davi e Abraão, por exemplo. No entanto, suas convicções firmes influenciaram sensivelmente a marcha do cristianismo. Sua herança hoje é inquestionável e trouxe benefícios não somente aos luteranos, mas a todos os cristãos sinceros. Além de sermos alertados sobre que o justo viverá por fé, milhões de pessoas no mundo têm acesso à Bíblia em seu próprio idioma, fruto de estímulo e determinação de um monge que ousou traduzir o Livro Sagrado no seu idioma natal.
De Sócrates e Makarenko, passando por Agostinho, Francisco de Assis, Tomás de Aquino, Inácio de Loiola, no livro intitulado Grandes Educadores, Fritz Mars destaca Lutero entre os 40 educadores que marcaram com suas idéias os últimos 2.500 anos de história da humanidade. Diz ele que Martinho Lutero demonstrou inabalável amor ao indivíduo que erra, e uma consciência da própria fraqueza e falibilidade. Lutero dizia que é preciso que façamos que é do nosso dever, exatamente porque o futuro é incerto.
Erasmo de Rotterdã, um de seus contemporâneos, dizia que Lutero confiava mais no Espírito Santo do que na educação formal propriamente dita. O reformador via na graça a única força eficaz a atuar no homem espiritual interior. Dizia que nenhuma educação, por melhor que fosse, poderia substituir a fé e a salvação, obras do Espírito e não de forças externas.
Quando o cristianismo dava os primeiros passos, vamos encontrar Paulo defendendo ardorosamente, diante de uma multidão em Jerusalém, que o cristianismo deveria ser anunciado aos gentios. A reação foi a pior possível. Entendia-se que os gentios não mereciam essa consideração. Em meio a gritos e levantando poeira, de raiva diziam: Tira tal homem da terra, porque não convém que ele viva.
Fatos semelhantes ocorreram ao longo da história. Posicionamentos em relação ao cristianismo sempre provocaram as mais diversas reações. Muitos pagaram a sua ousadia com a própria vida. O apóstolo Paulo foi um deles.
Ao negar-se à retratação, Lutero estimulou a elaboração de uma sentença contra ele. Conhecido como Édito de Worms, saiu nos seguintes termos: Lutero tem de ser tido como um herege comprovado. (...) Ninguém deverá prestar-lhe asilo. Seus seguidores deverão ser condenados. E seus livros serão extirpados da memória humana.
Talvez tivesse sido mais sensato terem-se lembrado do conselho do sábio Gamaliel, registrado por Lucas nos Atos dos Apóstolos: Se é da parte de Deus, não podereis destruí-los, para que não sejas, porventura, achados lutando contra Deus. Que lição! Segundo Mars, Lutero é considerado o mais importante personagem da Reforma.
Filho de um mineiro de Eisleben, nascido em 1483, Martinho Lutero faleceu em 1546, depois de um engajamento combativo e incansável pela renovação da Igreja, com base no autêntico espírito do Evangelho.
- TARCÍSIO VANDERLINDE é professor universitário em Cascavel


