LEGADO 1968, o ano que nunca vai terminar
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sexta-feira, 22 de junho de 2018
Vítor Ogawa<br>Reportagem Local 

A próxima terça-feira (26) marca os 50 anos da Passeata dos Cem Mil, uma das manifestações populares mais emblemáticas de resistência ao regime militar no Brasil. Além do ato realizado no Rio de Janeiro, muitos outros protestos marcaram 1968, imortalizado pelo escritor Zuenir Ventura como "O ano que não terminou".
O historiador e professor da UEL (Universidade Estadual de Londrina) Marco Antônio Soares lembra que a agitação em escala global ocorrida naquele ano é, em grande parte, reflexo das manifestações de estudantes e trabalhadores franceses, no icônico Maio de 1968. Soares analisa as origens do movimento e faz um paralelo com a realidade atual. Confira a entrevista.
O ano de 1968 foi marcado por grandes ebulições. Houve a morte de Martin Luther King e também foi um período de oposição à guerra do Vietnã. Como isso contribuiu para eclosão dos protestos estudantis na França?
Tiveram influência direta. Essa revolta estudantil aconteceu em muitos lugares no mundo entre 1968 e 1970, inclusive no Brasil. Nos Estados Unidos, o forte foi o movimento hippie contra a guerra do Vietnã e isso ecoava em Paris. Uma das questões que reverberavam entre os estudantes e os trabalhadores era o movimento contra o imperialismo.
Naquele momento os Estados Unidos eram a grande nação imperialista, ocupando áreas da Ásia e forçando o jovem norte-americano a fazer esse trabalho para o governo. Com isso, houve traços de solidariedade entre as lutas, não apenas entre classes, mas também entre diferentes nações. Esse movimento vinha desse inconformismo dos jovens de se submeter às ideias conservadoras que queriam controlar seus corpos e seus desejos, e também sua ação política.
Como esse movimento começou?
Seria importante ir atrás da produção visual da movimentação estudantil daquele período. No livro "Sociedade do Espetáculo", de Guy Debord, ele relata a falta de reflexão que ocorria em 1967 em Estrasburgo (leste da França) analisando que naquele momento a sociedade era muito mais ligada à efemeridade do espetáculo. Naquele tempo, quando o espetáculo acabava, terminava também a ação política. De certa forma, 1968 é fruto do jovem naquele momento. Foi quando surgiu um diálogo comum entre trabalhadores e estudantes por meio de cartazes. Por intermédio dessa questão visual são elaborados cartazes fantásticos, instando os estudantes a ir em para as fábricas e os operários a irem para as universidades. Por meio desse apelo visual se pregava a prática do amor livre e outras bandeiras. Dá para fazer uma bela história a partir de seus cartazes.
Como foi a explosão das manifestações?
Ela começa com uma greve de operários. A história da França é cheia de greves de operários e de funcionários públicos. Em maio de 1968, a França passava por uma crise institucional e os trabalhadores pararam. O governo reagiu fortemente a essa paralisação. Os estudantes universitários e secundaristas engrossaram as fileiras das lutas dos trabalhadores, mas as bandeiras que esses jovens levavam eram de temas que o movimento operário não discutia, que diziam respeito às questões ligadas ao comportamento. Naquele momento o contexto na França, na Europa e talvez nos Estados Unidos havia muito o que a gente chama hoje de caretice. As lideranças eram todas velhas, ligadas às atitudes conservadoras. Ao mesmo tempo que isso ocorria, havia uma forte renovação da universidade. Os professores antigos mais conservadores estavam se aposentando e a chegada de novos professores e de novos estudantes insatisfeitos com esse conservadorismo contribuiu para a formação desse movimento.
Em março de 1968 houve a morte do estudante Edson Souto por policiais militares, no Rio de Janeiro. Posteriormente, houve outras manifestações por todo o País que culminaram na Passeata dos Cem Mil. Houve alguma influência provocada pelos acontecimentos de fora do Brasil?
O estudante brasileiro nessa época também estava antenado com as questões que eram discutidas no mundo, como a Guerra do Vietnã e o excesso de conservadorismo. No caso brasileiro isso era piorado, porque a gente vivia uma ditadura civil militar que cuidava das ações não só de cunho político, mas também de cunho comportamental. Os jovens universitários em diversos locais do Brasil se manifestavam contra o autoritarismo do governo, contra a guerra e lutavam pela liberalização dos costumes. Naquele momento o mundo estava polarizado. As pessoas não pensavam prismaticamente. As pessoas só pensavam em direita e esquerda, como está acontecendo agora.
Em abril de 1968 houve manifestações da Frente Ampla no Norte do Paraná, que reuniram 15 mil pessoas em Londrina e Maringá. Em maio do mesmo ano os estudantes ocuparam a reitoria da UFPR e derrubaram o busto do reitor. Essas manifestações estudantis contribuíram para o endurecimento do regime militar, até culminar no Ato Institucional nº 5?
Com certeza. O aparato repressivo da ditadura ainda não havia se colocado de maneira tão terrível quanto foi no AI-5. Até o AI-5, a ditadura permitiu uma oposição consentida, mas ainda assim uma oposição, embora estimulasse grupos de extrema direita a atuar contra produções artístico culturais. A gente tem o caso da peça "O Rei da Vela", em que um grupo com o nome sinistro "Comando de Caça aos Comunistas" invade o teatro e bate nos atores. É uma coisa impensável. A situação política e cultural no Brasil vai ficando cada vez mais tensa. A ditadura agia contra as manifestações culturais no CPC (Centros Populares de Cultura) da UNE, contra as canções de protesto. Mas a partir do AI-5 o regime se fecha. A censura fica muito mais ferrenha, além de impedir a livre associação, as garantias de livre expressão. A partir do AI-5 a censura investe até contra aquilo que a gente chama de produção brega.
Existem pontos em comum entre 1968 e 2018? Quais aspectos daquela década podem se repetir nos dias de hoje?
Estamos atualmente com uma polaridade invertida. Se em 1968 os jovens lutavam contra a caretice, hoje boa parte da juventude é careta, comparada com o jovem de 1968. Embora a juventude atual esteja bastante liberal na questão de seu corpo, politicamente é muito egoísta. Naquele momento era a solidariedade que vigorava. Não era a minha luta, mas a nossa luta. Hoje o jovem flerta muito com a direita e com a extrema direita e isso o deixou menos solidário, mais egoísta. Talvez nos dias de hoje não teríamos esse espaço de luta e enfrentamento como tivemos em 1968. Digamos assim que a esquerda envelheceu. O trabalho de alertar sobre os perigos do extremo conservadorismo e do fascismo não foi um sucesso. Hoje tem gente que prega fechamento de universidades, outros que que apontam que não se deve haver políticas afirmativas para inclusão social, e há pessoas que julgam que as mulheres devem ganhar menos porque são mulheres. Essas posturas que a gente julgava terem sido superadas em 1968, voltam 50 anos depois invertidas. Quem fala isso são os jovens e isso assusta muito.
Porque aconteceu essa inversão?
Penso eu que isso aconteceu devido ao sistema educacional extremamente precário. Embora universalizado pelo acordo MEC/Usaid, esse sistema não promoveu uma educação com qualidade, tampouco provocou uma educação crítica. Essa educação não possibilitou que as forças emergentes surgissem, se articulassem e lutassem por seus direitos. A gente pensava em criar uma educação para a cidadania, mas nada disso aconteceu. O nosso ensino, embora universalizado, é precário e de péssima qualidade.


