Dono de uma trajetória profissional ímpar, o economista Álvaro Manoel se orgulha em dizer que sua carreira teve início no Norte do Paraná, mais especificamente em Cambé, cidade onde nasceu. Formado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), ele já foi professor em instituições de ensino superior e atuou nos ministério da Fazenda e do Planejamento, sendo chefe da divisão da dívida pública da Secretaria do Tesouro Nacional. Na década de 1990 foi consultor do Fundo Monetário Internacional (FMI) e hoje é economista sênior do Banco Mundial.
Em visita recente à região para ministrar palestra na Associação Comercial e Industrial de Londrina (Acil), Manoel concedeu entrevista à FOLHA e avaliou o posicionamento do Brasil no ranking das maiores economias do mundo, além de fazer projeções para o futuro. ''A economia brasileira tem um grande potencial. Mas ainda temos grandes problemas, como a extrema desigualdade'', afirma.
O caminho para combater a desigualdade de renda, segundo ele, é o desenvolvimento econômico com a criação de novos empregos. ''Hoje a estrutura tributária brasileira penaliza a criação de empregos. O País precisa de uma reforma estrutural na área de impostos'', aponta.
O Brasil ocupa a oitava posição no ranking das maiores economias do mundo. A que o senhor atribui esse posicionamento?
A economia brasileira tem um grande potencial, principalmente em termos de recursos naturais. Nos últimos 20 anos o País começou a explorar melhor os recursos com a descoberta do petróleo, por exemplo. Quando eu comecei a estudar economia no início da década de 1970 o Brasil importava 60% do petróleo que consumia. Hoje o País exporta petróleo. Outro exemplo é a ocupação do cerrado com a produção de grãos, que transformou o Brasil em um dos maiores exportadores de grãos do mundo. Houve a intensificação do desenvolvimento de alguns setores industriais. O Brasil é um grande exportador de aviões. Tudo isso elevou a capacidade produtiva do País de uma forma extraordinária. Mas ainda temos grandes problemas. Temos um grau de desigualdade extremamente elevado.
E qual é o caminho para minimizarmos a desigualdade social?
Por meio do crescimento econômico. Não há como distribuir riqueza sem crescimento. A política econômica do governo tem que priorizar o desenvolvimento econômico com criação de empregos, mais produção e mais eficiência. O Brasil tem condições de crescer mais. Nos últimos anos, o País cresceu metade dos índices apresentado pela China e pela Índia.
É preciso implementar políticas corretas. O Brasil precisa de uma reforma estrutural na área de impostos para viabilizar a criação de novos empregos. Hoje, infelizmente, a estrutura tributária brasileira penaliza a criação de empregos. Quando um empresário contrata um funcionário novo ele tem que pagar uma série de impostos. Em vez de se tributar o lucro ou o produto, tributa-se a folha de pagamento.
No Brasil, quais segmentos foram mais afetados pela crise global?
A crise mundial teve um reflexo na economia brasileira, especialmente no fluxo de capitais. Quando a crise estorou, os grandes bancos ''travaram'' a troca de capitais porque ninguém sabia quem estava em boas condições. Havia um medo de contaminação. A queda no fluxo de capitais prejudicou o mercado de ações e os investimentos diretos. As exportações e as importações também caíram e o crescimento da economia brasileira foi menor do que o esperado. Mas o Brasil sofreu menos do que os países centrais.
Foi justamente durante a crise que o Brasil ultrapassou a economia da Espanha e se consolidou em oitavo lugar no ranking das maiores economias do mundo.
Exatamente. Nos últimos 15 a 20 anos o Brasil conseguiu apresentar um comportamento das contas públicas muito positivo. Os Estados se enquadraram na Lei de Responsabilidade Fiscal, o governo federal começou a reduzir o déficit público ou gerar superávits primários que ajudaram a diminuir a dívida pública. Então, quando o Brasil entrou na crise estava mais preparado. E aconteceu exatamente o contrário com a Espanha e outros países. O País está se recuperando e as expectativas para o crescimento da economia são positivas, mas existem riscos na economia mundial que podem ter reflexo no Brasil.
E quais são os riscos?
Existe um potencial de guerra cambial. Para valorizar e aumentar as exportações, países implementam uma política cambial que desvaloriza a moeda local. As exportações tornam-se mais competitivas e as importações ficam mais caras. Quando países importantes começam a fazer isso, todos acabam perdendo. Outro risco é o que chamamos de ''duplo mergulho''. Muitos especialistas acham que a crise não foi vencida e que a recuperação não se consolidou. Há o risco do crescimento econômico desacelerar novamente. Se isso acontecer, o comércio brasileiro terá problemas. O preço das commodities (mercadorias produzidas em larga escala e comercializadas mundialmente) é outro risco. Com a recuperação da crise, os países voltam a comprar e os preços começam a crescer. Isso pode desarticular os mercados agrícolas.

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