O final de semana (domingo) plantou grandiosa ressaca cidadã neste que vos incomoda (de tempos em tempos) pelo caminho da pena, enquanto minha formação Partisan resgatava antigas lembranças de bem viver. Ao final vi emergir minha resistência de meio século e, uma vez mais, esperança me chamou a bailar.

Assim minha alegria oscilou, meio que metendo uma saída de cena que perdurou até o meio dia da segunda feira, onde e quando minha bailarina fascinante cantarolou sorrindo Bella Ciao, despertando a criança então machucada e recolhida, para seu tempo de viver...

A luta, pois – que a vida não aguarda lamber feridas que se curam na peleia cidadã e nem se cogita da hora de pintar de preto as portas vermelhas que existir ora descortina, ora cerra.

Pois então, mirei a montanha que projeta uma flor e não me bastou sua sombra – suposto que há muita gente ao desabrigo do sol, queimando as asas de uma vida de desconhecimento onde, invariavelmente, caminha com a distopia histórica e com a ignorância neocolonizante, levando a tiracolo o resgate do fascismo pelo voto...

Vou lamentar, sim, um congresso recheado de fascistas. Vou lamentar, tanto quanto, meu amado Paraná que estabelece um (des)governo de que, se qualifico, me processa – mas posso conviver com a imagem de um títere desletrado e ignorante o bastante para acreditar no que não conseguiu conhecer durante uma vida que não sustenta nenhuma biografia...

Mas não lamento nada o que talvez você, oh incauto despossuído de paixão, acredita encerrado ou encaminhado ao fim – não se ofenda, é que apenas não me vejo embarcar com Caronte.

Resistir faz parte de minha formação. A primeira infância (segunda metade dos anos sessenta) foi à sombra das dificuldades que a vida interiorana (ainda que de mesa farta e gigantesca paixão de meus pais) poderia cobrar em um canto onde mais não significava lutar pelos sonhos e sim pelas coisas materiais que traduziam as valenças do capital em polo de justificativa com o regime ditatorial que nasceu um ano antes de minha vinda a este mundo.

Preto e Branco, baby, sempre coloriram minha vida nas asas da fantasia Corinthiana que os dias de glória bem traduziram em resistência – fosse pelo doce de minha amada mãe, ou pela paixão monumental de meu amado pai.

Essa é a base empírica que me põe, uma vez mais, a acreditar – é que, se não acredito me perco, feito um ‘carrossel a girar nos moinhos de vento de minha imaginação’.

Esse é o tema que reparte a racionalidade em uma fantasia de fragmentos de uma canção que me acompanha pela vida, deixando pegadas na areia e lembranças de um passado que esvai as valenças de bem e mal, dor e alegria, ilusão e realidade...

Não sei você, mas eu não tenho alternativa que não trabalhar a liberdade, pois que senão toda viva traz de volta a cadela do fascismo que está sempre no cio.

Ainda que não haja, para mim, qualquer objurgação de ordem econômica (e não o digo por um elitismo vazio, suposto que deste mal nunca padeci), o que se põe em evidencia é a dor dos que, sem perceber, copularam com a cadela do desejo, abraçando na dança o demônio da opressão.

Resistir ao limite da crença, alimentando a alma da questão histórica, não é, para mim, senão uma dança de bem viver, tirada no campo fértil dos que tombaram pela liberdade.

Eu sigo o caminho de minhas crenças e, pelos deuses do bem viver, vou lutar e chamar você para seu tempo de despertar, feito as folhas de outono que caem em círculos beirando as árvores e suas circunstâncias.

Há tempo, sim, e esta estrada é toda pavimentada em tijolos de existir, que foram fixados ao longo do caminho por quem veio antes de nós e acreditou em um amanhã de felicidade e fraternidade, onde o homem seria a expressão de sua própria história e não um fantoche de estórias alheias.

Há, mas está difícil – dirá o que fez do leite a bebida mais forte que a vida lhe ofertou, em uma soirée de carnaval animada pelo Balão Mágico. Está sim, mas não desça para o jogo se os cravos lhe caem da chuteira antes de sentir o orvalho que a grama consagra em espirais de ilusão.

É o que sou e no que acredito – Vai virar!

Tristes trópicos, saudade Pai!

João Gomes, advogado

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