Lave as mãos e feche o nariz: a campanha começou...
Os franceses tiveram que sair de seus bistrôs, largar seus baguetes, queijos e vinhos e correr às urnas em 5 de maio, para votarem maciçamente no conservador Jacques Chirac, um político de biografia controvertida, com acusações de corrupção e mau uso do dinheiro público no lombo.
Os socialistas e os esquerdistas em geral tomaram esta atitude para evitar o avanço da ultra-direita xenófoba e neo-nazista, representada pelo candidato da Frente Nacional, Jean-Marie Le Pen.
Mas, para isto, muitos dos partidos aconselharam seus simpatizantes e filiados a irem votar com um prendedor no nariz ou lavarem as mãos após o fazer, numa campanha chamada de Mãos Limpas.
Apesar de tal medida ter sido considerada ilegal ou inconstitucional pelas autoridades eleitorais francesas, mostra o desconforto da falta de alternativas.
Aqui no Brasil, as coisas estão se encaminhando para algo parecido. Afora toda uma sequência de escândalos divulgados e não resolvidos no Palácio do Planalto e adjacências, começou a pré-temporada eleitoral, que será acirrada após a Copa do Mundo e as convenções partidárias.
Estão sendo abertas as portas e escancaradas as mazelas dos bastidores do poder, com a divulgação do propinoduto (real ou virtual) das privatizações, com a biografia meio nebulosa, vinculada ao treinamento de arapongas, do candidato a vice-presidente do PSB, sem contar a divulgação do cofrinho de Roseana, que sepultou sua candidatura nacional.
Não ficando somente no âmbito das eleições majoritárias, devemos tomar especial cuidado no que diz respeito aos sufrágios para o preenchimento das vagas no Congresso Nacional e Assembléias Legislativas.
Na última legislatura ouvimos e vimos grandes descalabros tendo como base o fisiologismo, o empreguismo, a corrupção, diversos comportamentos parlamentares, que, graças a Deus, envolveram a minoria do Parlamento Nacional e suas extensões estaduais, mas que mesmo assim enlamearam a imagem do Poder Legislativo, redundando em inúmeras renúncias e cassações de mandato.
Talvez a melhor solução fosse pedirmos a todos os aspirantes à Câmara dos Deputados, ao Senado Federal e às Assembléias Legislativas estaduais a divulgação de suas folhas corridas policiais e judiciais, bem como a permissão prévia da quebra dos sigilos bancário e fiscal, de modo a termos a quase certeza da honradez, transparência e seriedade dos nossos futuros legisladores.
Todas as precauções devem ser tomadas para que, em 6 de outubro, não tenhamos que ir de luvas ou de nariz tapado às seções eleitorais. E até lá fiquemos de olhos e ouvidos abertos filtrando e analisando a imensidade de dossiês e acusações que serão, levianamente ou não, jogadas a torto e direito nos jornais, na TV, no rádio, nas esquinas e botecos de nosso país. A campanha já começou...
- VILSON ANTONIO ROMERO é jornalista, auditor fiscal do INSS, diretor da Associação Gaúcha dos Fiscais de Previdência e conselheiro da Associação Riograndense de Imprensa
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