Lamento pelo Centro Cívico
Antônio Claret de Rezende
Estado e Prefeitura de Curitiba se uniram para mudar drasticamente o visual e a destinação da Praça Nossa Senhora de Salete, no Centro Cívico, em Curitiba.
Ao contrário do que sói acontecer, em se tratando de obra pública, do anúncio ao início dos trabalhos foi questão de dias. Homens, máquinas e caminhões transformaram a praça num canteiro de obras, mudando, num piscar de olhos, o aspecto tradicional logradouro.
À primeira vista, nada demais. No entanto, não restou claro o porquê de uma obra dessa natureza, executada com tamanho açodamento, em momento de crise, que aos cofres públicos e aos bolsos de todos afeta.
Mais grave ainda: não consta que a sociedade curitibana tenha sido ouvida. Que a Câmara de Vereadores tenha se manifestado. Que os deputados, os moradores e os que trabalham no Centro Cívico tenham tido a oportunidade de discutir as mudanças.
Lamentável o casuísmo e a unilateralidade de uma decisão dessa natureza, com reflexos não só paisagísticos e viários, pois mudará toda a concepção do local, mas na própria vida dos curitibanos. E sem um argumento convincente. Sem uma explicação ou uma justificativa plausível.
Profundamente lamentável que a coletividade não se tenha dado a menor oportunidade de opinar. Decisão nada democrática, pois, decisão que nem mesmo nos tempos do autoritarismo alguém ousou tomar.
Se a medida, como tudo faz crer, vem para evitar manifestações ou invasões, não passa de novo e tremendo sinal de fraqueza. Fraqueza que já foi responsável pelo acampamento dos sem-terra em que se transformou a praça, durante meses, porquanto nada, absolutamente nada justificava a permanência no local daqueles que ali estiveram. Nas barbas dos que tinham a responsabilidade e o dever de zelar por um bem público, e que, por definição, é de todos. E não de um grupo. Ou de um bando.
Pena que Curitiba aceite calada a transformação da Praça Nossa Senhora de Salete – única área central ampla e apropriada para grandes concentrações (lembre-se a inesquecível visita do Papa João Paulo II) – em um local fechado, cercado, de frequência e acesso limitados. Controlados.
Pena que poucos ou quase ninguém se manifeste. Pena que os vereadores, principalmente, não questionem. Que o Ministério Público, tão cioso de suas responsabilidades, não embargue e impeça o que se faz com um logradouro que tanto já custou aos cofres públicos, seja pelo projeto, de autor nacionalmente conhecido e respeitado, seja pela sua conservação.
Pena que, ao findar do século, Curitiba assista o ruir daquele que fora um sonho do grande idealizador do Centro Cívico, o inesquecível Bento Munhoz da Rocha. Sonho, aliás, já maculado por outras excrescências, urbanística e estrategicamente também comprometedoras.
- ANTÔNIO CLARET DE REZENDE é jornalista em Curitiba

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