Lágrimas secas
Romário fez mais que chorar. Usou a ginga entorta juiz. O jogador ergue o dedo para sua senhoria e diz: O senhor está apitando muito bem. Balança o dedo na cara do elogiado, muito bem, muito bem, mesmo. A platéia só vê a imagem. Não escuta. Para o torcedor, o jogador botou o dedo na cara da juiz e ainda sorriu. Cabra macho.
O soberbo e inexpressivo gladiador de botinadas, Felipão, está agora na defensiva. Impedia Romário por ser desagregador horrível esse vício da reengenharia agora, o humilde, talvez ex-baixinho marrento, bad-boy mostra sua humanidade pelas lágrimas. Um tanto colíricas. Desconfiem de atores cujos olhos não fiquem vermelhos e se lágrimas saírem do meio dos olhos e não dos cantos. Tem colírio no meio.
Não seria necessária a análise fisioquímica das lágrimas de Romário, muito menos colocá-las na pontinha da língua para saboreá-las acre-amarga-salgadas. Chegar ao ponto de chorar para jogar denuncia a maior das inversões de valores: o poder não está mais com o artista, o valor em campo. As estrelas são os patrocinadores, os cartolas e essa figura recalcada de técnico que inveja o brilho ameaçador da sua glória. Parece um pouco o vilipêndio de certos críticos (cinema, música, literatura, teatro, artes plásticas), desinformados destiladores de fel pela incompetente carreira estética própria na área escolhida para criticar. Tipo não deu pra mim, não vai dar pra ninguém.
No caso do Felipão, em sua figura até simpática de paizão disciplinador, talvez não se sobressaia tanto o recalque, mas se confirma a heresia do jogo de cena constrangedor: para montar sua família, Felipão emburrece na hora de escalar um time com valores. Análise de caráter, preferências sexuais, berço, grau de escolaridade, pinta, região geográfica, índice de puxa-saquismo, tudo isso não deveria pesar em uma convocação.
Afinal, Romário não vai frequentar a casa do Felipão, nem namorar alguém da brava família gaúcha o cara tem é que entrar em campo e atormentar a vida dos adversários com aquilo mais consagrador do nosso futebol: a surpresa, o toque inimaginável, o desconcerto total, o passe preciso, o drible desmoralizador e o gol. Ah, meu Deus, o gol! Essa magia inexplicável, às vezes construído e executado como uma sinfonia, e às vezes acidental, bruto, caricato, estranho, espírita, mas gol. Decisivo gol. E Romário sabe fazer gols. Quem precisa de óculos, colírios ou mesmo retirar os antolhos para as lágrimas esxchhpertas do peixsche?
TT CATALÃO é jornalista em Brasília





