Lágrimas políticas - Rubem Azevedo Lima
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segunda-feira, 02 de novembro de 1998
Rubem Azevedo Lima 
Uma das questões mais difíceis de entender, na estratégia da equipe econômica do presidente Fernando Henrique Cardoso, para impedir o ataque da especulação mundial às reservas cambiais do Brasil, é a insistência em preservar a alta da taxa de juros, de 29,75% para 49,75% desde setembro último. Fez-se isso para proporcionar ganhos atrativos aos especuladores, na esperança de convencê-los, a curto prazo, das vantagens de deixarem seus capitais voláteis no País.
Mas esse tipo de aposta de risco elevou a dívida pública brasileira de modo substancial. No fim do ano, o Brasil terá de pagar cerca de R$ 70 bilhões de juros, e os especuladores, temerosos da repetição, aqui, da crise russa, não se deixaram atrair pelas ofertas brasileiras.
Em pouco tempo, nossas reservas caíram de US$ 75 bilhões para US$ 40 bilhões, ainda assim porque o País recebeu, antecipadamente, parte das prestações vincendas pela privatização das estatais de telecomunicações, de US$ 7 bilhões.
Os especuladores desconfiaram da alta despropositada nos juros, encarando-a como sinal de que nossas próprias autoridades econômicas admitiam a situação crítica da economia. O pedido de ajuda ao FMI foi outro fator que deixou o Brasil em condições parecidas com as da Rússia. Resultado: a manobra altista dos juros foi um fracasso. Até o presidente, responsável por ela, chamou-a de flagelo, mas se vê obrigado a mantê-la por mais algum tempo contra o parecer de empresas de consultoria internacional.
Tal insistência complicou ainda mais a situação do País. Em discurso no Senado, quarta-feira passada, o senador oposicionista Roberto Requião deixou seus pares perplexos com as cifras assustadoras que citou sobre a realidade brasileira. Ao concluir o pronunciamento, saudado inclusive pelos raros senadores governistas no recinto, ele concitou o País à elaboração de um projeto de salvação nacional contra a perspectiva - a seu ver próxima - de caos, caso a atual política econômica, responsável pela devastação do Estado, acabe também devastando a Nação.
Quase ao mesmo tempo, um pequeno grupo de próceres do PFL e de economistas confiáveis avaliava, reservadamente, a situação do País em face da política de juros superelevados. A adoção do receituário do FMI - organização desqualificada até pelo ex-secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger - foi muito criticada por implicar o agravamento da recessão interna.
Entre outras coisas, admitiu-se que o presidente poria em xeque o que lhe resta de credibilidade e não teria, como Yeltsin na Rússia, condições de administrar a crise econômica. Ouviu-se um desabafo dramático: FHC, em breve, poderia não ter sequer como sair às ruas. Estranhou-se que o presidente, político sensível a ponto de chorar na assinatura do acordo de paz do Equador com o Peru, não notasse os perigos que o cercam devido à alta voltagem da agenda de sua equipe econômica. E, cá entre nós: se a crise explodir, como se receia, faltarão lágrimas a FHC para chorar por si mesmo.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília


