Poucas épocas do tumultuado calendário da democracia brasileira expõem com tanta crueza a imoralidade explícita de nosso sistema e as fragilidades flagrantes dos partidos políticos como as vésperas dos prazos fatais para a filiação partidária às portas das eleições. A semana passada foi o coroamento de mais uma dessas temporadas em que nosso regime expõe suas vergonhas de forma a fazer corar as tribos que receberam a frota de Pedro Álvares Cabral há 500 anos.
O noticiário político, então, reproduz a prática do velho conceito hegeliano de que a história se repete, adaptação do princípio ainda mais antigo do eterno retorno, intuído por Heráclito de Éfeso. Só que, ao contrário do que Karl Marx registrou na célebre (e bela) análise que fez sobre O 18 Brumário de Luís Bonaparte, no modelo brasileiro não é a tragédia que se repete como farsa, mas a farsa que ganha um tom tão bufão que acaba voltando eternamente à tragédia. De tanto rir, o público termina lacrimejando, sem sequer receber o dinheiro do ingresso de volta.
Há de tudo na tragicomédia Brasil. Antecipando a chegada às bancas da ‘‘Playboy’’ com a militante sem-terra sem roupa, o cantor Tim Maia, mais famoso pela impontualidade e pela obsessão perfeccionista pelo ‘‘retorno’’ (não eterno) do som de seu equipamento do que pelo volume invejável de sua voz, não perdeu a hora nem a paciência para se filiar ao rebanho do coronel Arraes no PSB. O general Nilton Cerqueira, apesar dos protestos de Serjão, arrombou a porta do PSDB sem usar o bastão com que comandou a caçada contra Carlos Marighela. Afinal, no Brasil, é mais fácil sair e entrar em partido político do que atirar num faminto desarmado, dormindo sob o sol a pino da caatinga.
Mesmo acusado por Arraes do crime de não ser socialista, Ciro Gomes, musa-símbolo da primavera do troca-troca, pulou os escombros do Muro de Berlim e se abrigou no PPS. Este, que, quando era o ‘‘Partidão’’ velho de guerra, já foi feudo do ‘‘cavaleiro da esperança’’, obediente às ordens de Moscou, hoje formula críticas de esquerda que o chefão criticado adora ouvir, sob a égide do senador Roberto Freire, aquele comunista que qualquer usineiro convidaria para jantar. Já a família Cardoso, pelo que se conclui de entrevista de dona Ruth à televisão, não aceitaria ser convidada para um banquete com o mais recente comunista de carteirinha, que, aliás, só é comunista na carteirinha.
Nessa primavera de poucas flores e muitos espinhos, também tem brilhado o topete do embaixador Itamar Franco. Como lembrou seu ex-desafeto e futuro aliado Lula da Silva, este cidadão não foi eleito e nunca contrariou o cabeça de sua chapa, Collor de Mello, de triste memória. Lula só cometeu um engano: Itamar contrariou muito o chefe na campanha, antes da vitória, e depois do naufrágio do ‘‘impeachment’’. Entre a subida e a descida da rampa, contudo, sua fidelidade foi canina.
Como se vê, impera o oportunismo, qualidade pela qual deve ser elogiado Edmundo em sua atual fase de goleador mudo, mas nunca um político. Infelizmente, contudo, o oportunismo é a regra, nunca a exceção, na feira livre das legendas, negociadas como se fossem farinha de terceira. Assim, a culpa não é dos homens, nem de Deus, nem do Diabo, mas, sim, do sistema eleitoral e da legislação partidária brasileiros. Por causa de ambos, o governador Victor Buaiz, vítima da intolerância petista, teve de virar estrela do PV, cuja bandeira mais conhecida, por obra e graça do ex-guerrilheiro Fernando Gabeira, é a descriminalização da maconha.
O que, infelizmente, não é crime é essa desavergonhada troca de partidos para atender a apetites pessoais e interesses paroquiais. Mas a tendência, ninguém se engane, é piorar. A não ser que o governo mande exumar o projeto de reforma política de autoria do líder do PSDB no Senado, Sérgio Machado (CE), que, por sinal, deve andar muito aliviado com o desembarque de seu incômodo amigo Ciro Gomes do ninho tucano. Pois o único lenço capaz de enxugar as lágrimas, provocadas pelo excesso de riso desse troca-troca, é, sem dúvida, a receita de uma mezinha, que contenha, em doses corretas, voto distrital, redistribuição das cadeiras dos Estados na Câmara, aproximando a aritmética da representação brasileira da velha matemática euclidiana e fidelidade partidária. Enquanto isso não ocorrer, a atividade política brasileira continuará sendo o que é: o exercício permanente da traição do eleitor pelo parlamentar, ao longo de todo mandato que este usufrui por delegação daquele.

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