Com a trágica morte da princesa Diana, surge uma importante discussão: qual o limite entre a ética e a necessidade de informar? Qual o limite entre o interesse público e a liberdade individual?
Apesar de Alain Etchegoyen afirmar que o tempo atual é a ‘‘Era dos Responsáveis’’, constata-se cada vez mais, o conflito entre a informação e a privacidade. Também é importante destacar que é difícil estabelecer um limite entre o que é ou não de interesse público, de encontrar o equilíbrio entre o direito e o dever que a imprensa tem de informar e o direito que todo cidadão tem de preservar sua privacidade. Faz parte do aprendizado democrático assegurar o convívio entre a liberdade de imprensa, o direito à informação e o respeito aos direitos essenciais de cada indivíduo, referentes à honra, privacidade e intimidade.
Deve-se distinguir também as pessoas que buscam a notoriedade por força de sua atividade e as que chegam à fama involuntariamente, tratando-se de difícil conflito assegurar a informação ao mesmo tempo que se deve resguardar a intimidade, notadamente aos que buscam a exposição pública. Este destaque é feito para demonstrar a dificuldade de estabelecer-se fórmulas legais precisas que balizem o tema. O que se afasta - sendo consensual, é a inadmissibilidade da censura prévia aos meios de comunicação, tendo-se em vista a lição de Thomas Cooley, para quem ‘‘as cláusulas de informar devem ter alcance maior do que a simples execução da censura preventiva.
Entretanto, mais que o aspecto legal, está em debate questões de ordem ética e cultural, pois há uma tendência em reduzir-se relações sociais a aspectos legais, numa tendência à ‘‘juridização’’ da vida em sociedade. Tal dificuldade, porém, não pode afastar a reflexão e uma séria discussão sobre a angustiante dificuldade de evitar-se a invasão e a divulgação da intimidade e o que significa ser interesse público, como ocorrido com a princesa Diana, ao longo de sua ‘‘vida real’’.
Como já destacado, há os que buscam a notoriedade, manipulam com a divulgação, enaltecendo suas virtudes, mas também correndo o risco de expor sua vida privada em detalhes e com as versões decorrentes. Repete-se o que disse Proust sobre o seu incomparável romance ‘‘A la Recherche.... vita brevis, ars longa - a arte sobrevive por muito mais tempo e com muito mais consistência do que a vida. Prevalece a versão. A conduta de natureza ética.
E toda vez que se analisa a questão ética na imprensa, a Inglaterra vem como exemplo. Parte da imprensa britânica é famosa pelo sensacionalismo, recebendo do jornalista Cláudio Abramo, quando correspondente em Londres, a alcunha ‘‘Shit sheet’’, destacando o mais popular entre os sensacionalistas - jornal ‘‘The sun’’, o que prova tratar-se a ‘‘notícia’’, nestes casos, de especial mercadoria no processo industrial da imprensa, o que resulta na venda diária de mais de 12 milhões de exemplares.
A título de curiosidade, o jornal ‘‘Daily Express’’, também conhecido pelo sensacionalismo, decidiu surpreender seus leitores com uma página de ‘‘boas notícias’’, como por exemplo: ‘‘marido ucraniano reencontra a mulher depois de 30 anos’’ ou ‘‘importante concerto de jovens músicos no Royal Albert Hall’’ ou ainda, ‘‘pára-quedista desce são e salvo sobre um rebanho de ovelhas’’. Apesar desta tentativa, a experiência foi um fracasso, demonstrando a origem, talvez, desta relação. Uma relação perversa, um círculo vicioso que se estabelece entre a produção de uma mercadoria e de parte da opinião pública ávida em consumi-la. Tal relação produziu uma verdadeira indústria, na qual é comum as pessoas receberem quantias destes jornais em troca de revelações de nomes conhecidos. Daí, os ‘‘paparazzi’’.
O lamentável episódio da morte da princesa Diana recoloca a discussão sobre eventuais limites. A tradição inglesa é de total liberdade, não possuindo um pacto solene para garantia dos direitos públicos e qualquer sugestão de lei regulamentando a matéria, sempre foi tida como intromissão, ao contrário de países vizinhos como a França (‘‘Loi de la presse’’) e a Itália (Legge sulla stampa’’). Uma das iniciativas inglesas foi a criação de um conselho, o ‘‘press council’’. E todas estas tentativas decorrem, principalmente, de fatos envolvendo a família real, como a publicação das fotos da princesa Diana fazendo exercício numa academia particular de ginástica, divulgadas pelo jornal ‘‘Sunday Mirror’’ e depois pelo jornal ‘‘Daily Mirror’’, do mesmo grupo. Outro episódio que também provocou a discussão sobre um código de conduta profissional ocorreu depois que a revista ‘‘The People’’ publicou uma foto do filho do príncipe Charles e Diana, Harry, então com sete anos, urinando num parque. Vários mecanismos já foram propostos, sem haver um definitivo ou abrangente. Mesmo assim, o direito consuetudinário não deixa de constituir um verdadeiro direito de imprensa, um ‘‘press law’’, como verifica-se com a permanente interpretação da constituição americana através da Suprema Corte.
Neste sentido, destaque-se que a justiça inglesa apresenta resposta rápida nos processos de indenização, quer aplicando multas consideráveis em casos de crime contra a honra, quer rejeitando e aplicando multas contra aqueles que pretendem beneficiar-se de uma demanda desta natureza.
Não se trata, porém, de distorção exclusiva dos dias atuais. Conforme o historiador e professor da Universidade de Princeton Robert Darnton, a difamação já existia nas batalhas políticas das cortes italianas do século XVI. O professor Darnton batizou essa forma de fazer política como ‘‘armadilha da mídia’’, na qual verifica-se uma tendência a reduzir questões complexas às personalidades envolvidas, com destaque ao processo político nos Estados Unidos. Na mídia moderna, são os presidentes que se tornam caricaturas, exatamente como acontecia aos reis e rainhas nas redes de comunicação do passado. ‘‘São figuras de repertório um novo folclore político: Richard Nixon, vilão maligno; Jimmie Carter, sulista ingênuo; George Bush, aristocrata empavonado; Bill Clinton, yuppie peso-pena. O único bom rapaz dessa galeria de personalidades é Ronald Reagan, ele mesmo um profissional da mídia que conquistou a Casa Branca a partir de Hollywood’’, destacando-se em relação às últimas eleições presidenciais americanas, que a mesma ‘‘parceria girar em torno da vida sexual de Clinton’’. Assim, as questões públicas parecem ser uma sucessão de casos amorosos e discussão sobre a intimidade dos personagens.
Mas qual a razão das pessoas se interessarem pela vida sexual de seus dirigentes, em detrimento de questões de maior relevo? Tudo começou em 1521, quando Pietro Aretino lançou a primeira ‘blitz’ de mídia. Os cardeais estavam trancados na Capela Sistina havia semanas, engalfinhados na eleição do sucessor de Leão X. Toda Roma mantinha a respiração suspensa e fazia apostas sobre o resultado. Conforme subiam os páreos e engrossavam-se as intrigas, certos poemas começaram a aparecer colados no lugar mais estratégico da cultura pública da cidade - uma estátua sem nariz nem membros na Piazza Navona, conhecida como ‘Il Pasquino’. Nunca se vira em público poesia assim. Desabusada, engraçada e terrivelmente bem-informada, ela devassava a vida de todos os candidatos - um cardeal afeito a garotos pequenos, outro que praticava usura, este que patrocinava batedores de carteira, aquele que morria de medo de sua ‘mama’. As ‘pasquinadas’ espalharam-se como fogo na pradaria. Copiadas, memorizadas, vendidas em tavernas e recitadas à mesa dos grandes senhores, elas firmaram um estilo de fazer política que persiste até hoje: o contraculto da personalidade. Destaque-se que o candidato de Arentino, Giulio de Medici, não venceu a eleição. Mas Arentino ganhou tal reputação que acabou por se estabelecer como ‘‘chantagista profissional’’. Ameaçando fazer de papas e príncipes motivo de riso por toda a Europa, viveu o resto de seus dias em opulência, temido e festejado em seu ‘palazzo’ no Gran Canale de Veneza. Este personagem consagrou a idéia que ‘‘ainda hoje anima a mídia: o nome faz a notícia’’ (seria possível identificar os ‘‘Aretinos’’ modernos?).
Outros personagens ao longo da história, desenvolveram técnicas e princípios suplementares. Foi assim com Niccolá Maquiavel, quando estabeleceu que um ‘‘príncipe que cultivasse a reputação de ser impiedoso poderia conseguir com o simples medo o mesmo que conseguiria com uma batalha’’. O cardeal Richelieu ensinou no século XVII que ‘‘a reputação é tão necessária que um príncipe que goza de aprovação pode fazer mais com seu nome que aqueles que têm grandes exércitos mas pouca estima.
Por fim, um vocabulário específico desenvolveu-se durante do Antigo Regime Francês, para descrever a transmissão de notícias pouco lisonjeiras para o rei: ‘‘da simples fofoca (o ‘on-dit’) aos boatos (‘nouvelles de bouche’), da difamação política (‘mauvais propos’) aos rumores potencialmente explosivos (‘bruits publics’), que por vezes inflamavam as emoções populares ou as revoltas.
Este fenômeno obriga, cada vez mais, à reflexão e à capacidade de separar o rumor ou a versão da realidade. O direito à verdade e à boa informação é condição de cidadania. É preciso desconfiar. Tal atitude é necessária e legítima, não se podendo crer que se trata de problema meramente legal. Mas, talvez quem melhor explique esta distorção é Jean Paul Sartre quando, ao analisar a reciprocidade nas relações humanas, afirmou: ‘‘Meio vítima, meio cúmplice. Como todo mundo’. Há que se pensar na engrenagem que movimenta esta indústria. Mas, felizmente, pertence à natureza democrática o fato de que nada pode permanecer confinado no espaço do mistério. Nem mesmo os excessos e desvios.

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