Quando a Universidade de São Paulo surgiu, na década de 30, boa parte dos professores veio do exterior. Na bagagem, um pensamento bastante moderno para a época: a função da universidade é, além de desenvolver a pesquisa - ainda incipiente por aqui - qualificar a população para o mercado de trabalho. Era o início da industrialização, o Brasil começava a deixar de ser rural para concentrar-se em grandes cidades como a própria São Paulo. Mas estamos virando o milênio e a lenga-lenga continua. Sem que reitores, professores e alunos - e por que não a sociedade? - ponham em prática essa disposição.
O Ministério da Educação tem, até o fim do ano, que analisar propostas de todos os segmentos da educação brasileira - e delas selecionar o que importa de fato para regulamentar partes da nova Lei de Diretrizes e Bases (LDB). Na semana passada, um grupo de reitores e pró-reitores reuniu-se em Campinas para discutir propostas que serão apresentadas ao MEC.
Nenhum remédio surgiu do encontro. Mas, como de praxe, algumas doenças foram diagnosticadas. Um dos diagnósticos, entretanto, tem que ser levado muito a sério: hoje a universidade não prepara ninguém para o mercado de trabalho, cada vez mais competitivo, em que o simples operário que sabe lidar com um microcomputador ganha, em média, 20% a mais no contracheque. Num país de baixa escolaridade como o nosso, essa constatação é uma tragédia.
As instituições de ensino - públicas ou privadas - têm que ser mais pragmáticas. Basta de choramingar em seminários e congressos que as universidades são, na verdade, colégios de 3º grau. Ou que os diplomas, em regra, não podem chegar ao cúmulo de serem desacreditados até pelos próprios estudantes. E que bastaria acabar com os currículos mínimos. Tudo bem, é mesmo uma estupidez que alguns currículos permaneçam inalterados desde o início da década de 60. Mas são mesmos esses os problemas mais cruciais do ensino superior?
O Mercosul abriu um leque de opções de emprego para o brasileiro - nas áreas de administração, vendas, turismo... Mas ainda é tratado, como mercado de trabalho, com excessiva timidez. Pouco menos de 30 faculdades brasileiras oferecem cursos regulares de espanhol.
Na área de informática, há poucos centros de excelência que possam, por exemplo, montar incubadoras - como são chamados os grupos de estudos e pesquisas que saem da sala de aula direto para o mercado. Mirem-se no exemplo de uma pequena empresa de fundo de quintal de Campina Grande, na Paraíba. Ela surgiu numa incubadora para ganhar, na área de telefonia, concorrências até na Casa Rosada, sede do governo argentino. A universidade, nesse caso, formou empresários. Não desempregados com diplomas, como há a granel por aí.
E mais: pesquisa recente da Universidade Federal de Pernambuco mostra que 35% dos alunos abandonam seus cursos antes de completarem dois anos perambulando pelo campus. Uns, entediados, se desiludem naturalmente: já haviam escolhido cursos que nada têm a ver com suas vocações. Outros por achar que o mercado de trabalho não os acolherá. Alguns acham seus departamentos acadêmicos - que deveriam se sustentar por meio de financiamentos de empresas privadas - laboratórios fabricados pela Lego - aqueles módulos com os quais são feitos aviões, robôs e até castelos. Mas não servem para nada.
- RENATO FERRAZ é jornalista em Brasília

mockup